A arte de pensar livremente

A arte de pensar livremente
Aqui somos pretensiosos escribas. Nesses pergaminhos virtuais jazem o sangue, o suor e as lágrimas dos que se propõem a pensar com autonomia. (TeHILAT HAKeMAH YIRe'aT YHWH) prov 9,10a

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Sermão para Comunicação e Pregação - Quando Deus grita por socorro


QUANDO DEUS GRITA POR SOCORRO.

EXORDIO
O século XIX certamente foi o mais cáustico e atroz para a comunidade cristã. Os arroubos céticos da ciência e da filosofia tornavam-se impossíveis de serem menosprezados. Se Friedrich Nietzsche anuncia: Deus está morto; Ludwig Feuerbach é o assassino confesso ao propor que não foi Deus quem criou os homens, mas verdadeiramente foram os homens que criaram a (os) Deus (es), sendo esse (s) nada mais do que projeções humanas. A cristandade então não deveria debruçar-se sobre os estudos teológicos, mas sim sobre os estudos antropológicos.
Qualquer apologista menos preparado certamente encontra-se em situação difícil quando se depara com tais afirmações, enfáticas e, sobretudo contundentes, afinal todos esses que se arvoram à morte de Deus eram quando crianças, em absoluta maioria, religiosos convictos e até que se prove o contrario religiosos denominacionais. Sendo assim não creio que sua denúncia seja referente a Deus e suas dimensões transcendentais ou metafísicas, mas giram sobremaneira quanto ao uso do conceito de Deus, bem como do fato de homens religiosos deterem em suas mãos a dimensão última de Deus e seu agir. Ao levar tais pensamentos a sério percebemos em Dietrich Bonhoeffer, mesmo em sua pequena cela, escrever a seu amigo Ebehrard Bethge: É preciso um cristianismo “arreligioso” para um mundo que se tornou adulto. Há de se transcender o próprio rigor religioso, próprio dos que buscam aprisionar o “superDeus”, o “superótimo”.
A vociferação dos filósofos românticos alemães, não é contra o Deus transcendental-metafísico, mas certamente e justamente contra os líderes institucionais que se apropriaram de Deus tornando-o refém de suas vontades e perspectivas.
Mas, contrariando aqueles que têm uma perspicácia menos acurada, esse não é um fenômeno moderno, é um fenômeno que acompanha a história da religião, acompanha a própria relação de Deus-criador com o homem-criatura. Os homens sempre buscaram deter os discursos a respeito de Deus e usar essa ideologia a seu favor.

NARRATIO – 2 Re 23,28-29; 2 Cr 35, 20-24
Ora, o mais dos atos de Josias e tudo quanto fez, porventura não está escrito no livro das crônicas dos reis de Judá? (2Ki 23:28 ACF)
Depois de tudo isto, havendo Josias já preparado o templo, subiu Neco, rei do Egito, para guerrear contra Carquemis, junto ao Eufrates; e Josias lhe saiu ao encontro. (2Ch 35:20 ACF)
Nos seus dias subiu Faraó Neco, rei do Egito, contra o rei da Assíria, ao rio Eufrates; e o rei Josias lhe foi ao encontro; e, vendo-o ele, o matou em Megido. (2Ki 23:29 ACF)
Então ele lhe mandou mensageiros, dizendo: Que tenho eu contigo, rei de Judá? Não é contra ti que venho hoje, mas contra a casa que me faz guerra; e disse Deus que me apressasse; guarda-te de te opores a Deus, que é comigo, para que ele não te destrua. (2Ch 35:21 ACF)

Porém Josias não virou dele o seu rosto, antes se disfarçou, para pelejar contra ele; e não deu ouvidos às palavras de Neco, que saíram da boca de Deus; antes veio pelejar no vale de Megido. (2Ch 35:22 ACF)

E os flecheiros atiraram contra o rei Josias. Então o rei disse a seus servos: Tirai-me daqui, porque estou gravemente ferido. (2Ch 35:23 ACF)

E seus servos o tiraram do carro, e o levaram no segundo carro que tinha, e o trouxeram a Jerusalém; e morreu, e o sepultaram nos sepulcros de seus pais; e todo o Judá e Jerusalém prantearam a Josias. (2Ch 35:24 ACF)

Sobre os relatos contidos em 1 Re 12 – 2 Re 25 vemos que:
“Aqui se tornam transparentes o modo da composição e os interesses desta abordagem. Ela está orientada por completo para a pessoa do rei em questão. Não obstante, dele relata tão somente os fatos básicos, e de resto remete o leitor às fontes indicadas. A avaliação religiosa, orientada pela exigência do Deuteronômio acerca da pureza do culto de YHWH e da unicidade do lugar de sua adoração, tem especial importância para a abordagem em seu conjunto” [1].
Assim sendo, em 2 Re 23:29-30 há a descrição da morte de Josias pelo faraó Neco, em Megido. Aparentemente Neco havia apoiado o rei Assírio, assim, Josias pôs-se em contraposição a isso talvez para evitar que o poder assírio fosse fortalecido com a ajuda egípcia, ou ainda no temor da hegemonia assíria se voltasse contra seu reino. Fato é que Megido foi o local de morte do rei Josias, o reformador de Judá.
Em toda a construção da obra Historiográfica-Deuteronomista aponta para Megido, em um período tribal (Josué e Juízes) como grandeza citadina a ser conquistada. Como abordam tradições muito antigas, é possível que ainda não haja na intenção do autor a visão de um ambiente citadino fortificado, embora possa notar-se o uso de Megido como centro de patrulha egípcio na transição entre primeiro e segundo milênio[2]. Tal pensamento seria condizente com a abordagem sincrônica, onde os grupos de Josué e Juízes ainda reflitam sobre grupos “hapirus”, migrantes no ambiente do crescente fértil e que buscam estabelecer-se em um processo de sedentarização, abandonando a transumância característica desse povo.  Já no período dos reis observa-se já o processo de fortificação instituída, em maior ou menor grau dependendo do regente observado. Certamente o fato de ter se encontrado grandes estábulos no território de Megido atribui, tradicionalmente, sua elevação em importância ao período salomônico. Já aqui é possível perceber que Megido sempre está envolta por apontamentos de revolta, guerra e morte de reis. O contexto de batalha sempre ocorrendo em seus territórios pode ser explicado pela importância das vias que a circundam na locomoção de exércitos que insistentemente oprimiam os habitantes do Crescente Fértil nos períodos mais remotos (como observado em ação dos egípcios e assírios), passando pelo domínio babilônico, persa, helênico e romano. Todos, sem exceção, utilizam-se das vias que percorrem os arredores de Megido para a locomoção de tropas, transporte bélico e de mantimentos. Assim, no imaginário do autor da Obra historiográfica-deuteronomista está clara a idéia de que Megido é um centro de disputa, tanto em tempos remotos como em períodos contemporâneos. Corroboram com essas perspectivas as descrições dos portões, fortemente adaptados tais como os de Hazor, e sua localização nas colinas, de onde é possível visualizar toda a movimentação nos arredores da cidade desfrutando de sua proteção oriunda de sua localização topográfica privilegiada.
Em 2 Cr 35:22 novamente traz à tona a morte do rei Josias, fato já relatado em 2 Re 23:29-30. Fica claro na comparação das duas passagens uma diferença pertinente e marcante: enquanto no relato de Reis fica evidente a brava participação de Josias contra o faraó Neco, mesmo com sua morte no território de Megido. Na descrição de Crônicas a morte de Josias se dá pela desobediência. O próprio Deus fala para Neco ir contra os assírios, assim quando Josias se volta contra Neco, volta-se na verdade contra Deus que já havia orientado o egípcio. O que é marcante aqui é a mudança de perspectiva. Se na historiografia-deuteronomista a morte de Josias é um ato bravo de um rei que se opõe contra os opressores coligados, a saber, Egito e Assíria, na historiografia-cronista a morte de Josias é um ato de desobediência e desatenção para com as palavras de Deus. Vemos em prática a doutrina da retribuição característica nos textos do Cronista. Um fato negativo que ocorre com um rei do Sul deve ser justificado por seu descumprimento da aliança. Caso isso não fosse feito, a idéia de um Deus coligado à nação é tão forte que ao vencer Josias em uma batalha, Neco teria vencido também o próprio Deus do reino do Sul. Colocando Deus em contato com o faraó Neco e Josias em combate com este monarca que havia recebido direcionamento do próprio Deus, o Cronista salvaguarda a divindade de Deus em detrimento da imagem de um monarca morto.
O autor da historiografia-cronista utiliza da não canonização dos textos existentes no intuito de retocar os textos anteriores produzindo uma obra que fala por si mesma, sem necessidade de comentários. “Salvaguardar a unidade religiosa do povo de Deus foi uma das preocupações mais fortemente sentidas durante o período pós-exílico” [3]. Talvez seja essa a força que direciona os retoques como os vistos no relato da morte de Josias em 2Cr 35:22. Esta obra trata de uma exortação à unidade, exaltando laços étnicos e religiosos que unem tradições antes díspares. O Cronista defende títulos e direitos de Jerusalém e sua centralidade como centro religioso, bem como ocorre nos relatos dos reis do Sul, sumamente na linhagem “davídica-salomônica”.
Os redatores da Obra deuteronomista, assim como o redator da Obra cronista, detêm o posicionamento de Deus. Aliás, posicionamento que tais redatores pensavam que tinham pleno conhecimento e que poderiam fazer tais apontamentos. O Deus deuteronomista sempre se posiciona favorável aos reis do Sul, sobremaneira com Josias que se torna o principal reformador político-religioso, sendo inclusive tido como possível mandatário do processo redacional deuteronomista. Sua morte representa a morte de um processo reformador por isso o choro de toda uma nação. Em contrapartida, a redação cronista formada pelos repatriados do pós-exílio não podem associar a imagem de Yahweh, o Deus estatal, com um rei que foi morto em batalha. Yahweh está com a parte vitoriosa sempre, não poderia de modo algum se atrelar aos derrotados, oprimidos, exilados. Antes está com os que retornam em júbilo para a terra original, “a glória da segunda casa será maior que a da primeira”.
Mas o intento do pensamento teológico que revê a prática pastoral leva a um questionamento fundamental. Pode um religioso exercer seu papel de liderança sem ater-se a deter as ações e pensamentos do próprio Deus? Creio que sim, mas para tal há de se refletir, ao menos superficialmente em alguns aspectos.


RATIO
1 – Deus é símbolo para Deus.
A proposta de Paul TIllich é de fundamental importância no entendimento da dimensão intangível de Deus, bem como  do papel especulativo do teólogo/religioso. Aqui se vê que há um Deus que assume a dimensão simbólica para o outro Deus que é de uma dimensão não delimitada.
Se o primeiro Deus é um símbolo, “tende-se a considerar a cultura e os sistemas simbólicos em geral como um instrumento de poder, isto é, de legitimação da ordem vigente” [4]. Esse Deus é então fruto de um sistema racional proposto que busca elucidar e apresentar uma racionalização sobre Deus. Neste sentido atende-se prontamente aos apontamentos de Ludwig Feuerbach, afinal faz-se necessário um estudo antropológico das manifestações desse Deus na história, na cultura, na vida das pessoas. Necessário é entender que o Deus que é símbolo é o Deus da teologia, dos estudos, das especulações, dos discursos humanos. Mas é imperioso aclarar a idéia de que esse Deus primeiro é simbólico, fruto de um construto humano, portanto limitado e, porventura falho.
O segundo Deus é o da mística, da experiência, do transcendente, do metafísico. Assim assemelha-se nosso pensamento ao de Pseudo-Dionísio de Aeropagita: “A causa perfeita e unitária de todas as coisas está acima de qualquer afirmação, e a excelência dAquele, que está absolutamente separado de tudo, e acima de tudo supera toda negação”[5]. O segundo Deus na afirmação de Tillich transcende toda afirmação e negação que possa ser feita a respeito d’Ele.
O primeiro passo do teólogo/religioso é perceber que o Deus proposto e afirmado, estudado e redigido é um aparato simbólico, incapaz de afirmar ou negar, o Deus que é.

2 – O líder se faz pela confiança que inspira em seus liderados
“Se você quer conhecer o homem, dê poder a ele”. Nicolau Maquiavel é primaz ao apontar os perigos do poder e como este poder pode mudar o comportamento de certas pessoas. O cristianismo é fundamentalmente uma subversão de valores hierárquicos. É o líder que se põe aos pés dos discípulos para lavá-los, é aquele que usurpa ser o primeiro que se faça o último, é o próprio “filho de Deus” que não toma seus seguidores por “liderados”, mas sim por amigos. Em contraposição vivemos dias de apóstolos televisivos, mega concentrações de milagres, líderes da fé que detêm o agir e o efetuar do próprio Deus. Uma inversão, beirando à irracionalidade, dos valores, se não cristãos, ao menos humanistas.
Quando vejo filmes de batalhas épicas chama a atenção o fato de o grande líder, comandante da força de ataque principal, sempre está às voltas com seus soldados, dos mais graduados, aos menos relevantes, todos percebem em seu líder a proximidade de todos os dias. Os grandes líderes não estão distantes dos liderados, antes estão juntos, caminham lado a lado, os ferimentos da batalha são idênticos em ambos, e é justamente a proximidade que faz com que o respeito e a admiração pelo grande líder sejam adotados e inquestionáveis. Ao nos aproximarmos dos grandes generais épicos sentiríamos o cheiro do suor, da poeira, do sangue e das lágrimas. Ao nos aproximarmos de um teólogo/religioso deve ter o cheiro da dor das pessoas, das lagrimas vindas do desespero, eventualmente da alegria e satisfação. O teólogo/religioso é o que estuda e pensa as pessoas em suas infindas buscas pelo Deus intangível, tal qual qualquer pessoal que está nos bancos de sua comunidade. Assim, o pronome demonstrativo adequado para as “falas congregacionais” sempre deveria estar na primeira pessoa do plural. Estamos todos “NÓS” na busca por um Deus transcendente. A dicotomia de classes – dominador e dominado - é quebrada ao menos nas comunidades de fé, e temos a esperança de que ideários como os da Igualdade, Liberdade e Fraternidade seja idealizados e buscados na construção diária da fé.

PERORATIO
Percebemos que no contexto protestante, valores como o sacerdócio universal são vilipendiados na formação de um corpo profissional de sacerdotes modernos, que visam aprisionar Deus em concepções e apontamentos próprios destes líderes e, assim, assumem como pré-requisito básico para a liderança eclesiástica o autoritarismo. Tais líderes têm na sistematização da hierarquia “divinamente inspirada” sua força e sustentáculo, pilar central de ministérios que visam inculcar seus liderados no intuito de que não percebam que são marionetes, nas mãos desses sacerdotes. De igual modo, tais líderes tomam para si a dimensão transcendental de  Deus e o aprisionam em suas vontades e desejos.
Hoje esse Deus que se revela ao homem na cultura e na história grita por socorro, no fundo de sua cela ideológica, e vê nos futuros líderes seu sonho de retorno à liberdade. Cabem-nos, futuros líderes teólogos/religiosos, a força para libertar esse Deus aprisionado, usando para isso a lembrança de que nossas especulações são, por mais genuínas, especulações simbólicas e finitas de um Deus infinito. De igual modo cabe o emparelhamento com os fiéis que experimentam e buscam pelo Deus transcendental da esperança e da graça salvadora.
Talvez atentando para os limites dos estudos, e da hierarquia venhamos a interpretar com uma sombra de proximidade os versos de Jó 42, 5-6: “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza.”

N’Ele, que foi, é e será.
Thiago Barbosa








[1] RENDTORFF, Rolf – Antigo Testamento: Uma introdução – Rolf Rendtorff; tradução de Monika Ottermann. – Santo André: Ed. Academia Cristã, 2001. P. 72.
[2] Cf. SHAFER, Byron E. (org.), 1938 – As religiões no Egito Antigo: deuses, mitos e rituais domésticos – Byron E. Shafer (org.), John Baines, Leonard H. Lesko, David P. Silverman; trad. Luis S. Krausz. – São Paulo: Nova Alexandria, 2002.
[3] LAMADRID, Antonio González – As tradições históricas de Israel: Introdução à história do Antigo Testamento – Antonio González Lamadrid; trad. José Maria de Almeida. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. P.153
[4] Bourdieu, Pierre – A economia das trocas simbólicas – Pierre Bourdieu, trad. Sérgio Miceli; São Paulo, Ed. Perspectiva S.A., 1974, p.VIII.
[5] Dionísio, o Aeropagita, santo – Teologia Mística – Pseudo-Dionísio Aeropagita; trad. Marco Lucchesi. Rio de Janeiro. Fissus, 2005. P.36

sábado, 23 de abril de 2011

TOCANDO VIDAS, RESGATANDO ALMAS: uma perspectiva “graciosa” no cotidiano.


TOCANDO VIDAS, RESGATANDO ALMAS: uma perspectiva “graciosa” no cotidiano (Lc 8:40-41.49-56)

EXORDIO
(João Alexandre - Em nome da Justiça)
Só com muito amor a gente muda esse país
Só o amor de Deus pra nossa gente ser feliz
Nós os filhos Seus temos que unir as nossas mãos
Em nome da justiça, por obras de justiça
Quem conhece a Deus não pode ouvir e se calar
Tem que ser profeta e sua bandeira levantar
Transformar o mundo é uma questão de compromisso
É muito mais e tudo isso.

Busco nesse “poema musicado” de João Alexandre uma ilustração para a idéia que tentarei discorrer nesta noite. Evidentemente o mundo mostra-se caótico, mesmo aos olhos mais desavisados e inertes. Vimos na abertura deste congresso o testemunho do Pastor Carlinhos Félix o testemunho sobre o cuidado de Deus em livrá-lo do trágico “11 de setembro”. Infelizmente outras 2.996 pessoas não tiveram o mesmo livramento, vários destes cristãos como eu e você, mortos não pelas ações terroristas, mas sim pelo ódio oriundo do fundamentalismo religioso que aponta para a morte, antes de revelar em si a vida. Os desastres geológicos do Haiti, Chile e, recentemente, Japão mostram a fragilidade frente a uma força muito maior, as forças naturais que ocasionam fenômenos como os terremotos, maremotos, tufões e outros diversos fenômenos cataclísmicos que ocasionam a morte e a desesperança. Mais recentemente vemos a ação de uma mente inconseqüente que proporcionou as cenas de terror na escola em Realengo (RJ) deixando um rastro de medo e morte. Doze foram os mortos, incluindo o autor do ato, e uma enormidade de outras famílias traumatizadas com a gratuidade da violência dos dias atuais. (MIQUÉIAS 7:2 – Pereceu da terra o piedoso, e não há entre os homens um que seja reto; todos espreitam para derramarem sangue; cada um caça a seu irmão com rede).
É nesse contexto de profunda desesperança que nasce no Crescente Fértil a apocalíptica judaica, um estilo literário que retrata a dura vida do povo sob o julgo Greco-Romano e que, aponta em um mundo que ainda virá a sua esperança. O Messias haveria de vir, os mortos ressuscitarão e todo “choro e ranger de dentes” cessará. O texto que escolho para refletir juntamente com os irmãos é certamente fruto desse ideário. Trata da vida se sobrepondo à morte, uma perspectiva da “graça” no cotidiano das pessoas.

NARRATIO
Lc 8:40-41.49-56
O evangelho de Lucas trata-se, seguramente, de uma obra nascida da fé de uma comunidade e fundada sobre uma tradição. O autor usa como fontes de apoio o evangelho de Marcos, as testemunhas oculares e a tradição oral das pregações apostólicas. Seu autor é um intelectual metódico de linguagem relativamente pura e gentílico-cristão – e suas idéias denotam um interesse particular pelos gentios. Serviu-se do evangelho de Marcos e trata-se possivelmente de Lucas, companheiro de Paulo, contemporâneo de Mateus. Lucas olha a vida de Jesus retrospectivamente, não somente como historiador que deseja retraçar os eventos passados em sua ordem cronológica, mas como crente que sabe que a ressurreição de Cristo dá a tudo que precede o seu entendimento verdadeiro. Assim, Lucas torna-se o evangelho dos pobres e insiste sobre o universalismo do evangelho.
Aqui especificamente o autor relata a busca de Jairo, um chefe sinagogal, pelo restabelecimento de sua filha. O que basicamente sabemos deste homem deve-se ao que presumimos relacionado à sua profissão. O número de sinagogas na Palestina até o ano 70 d.E.c. deve ter sido pequeno. Mas as raízes das sinagogas não devem se encontrar, como se presume amplamente, no exílio Babilônico, mas numa instituição pós-exílica “que estava encarregada de realizar tarefas públicas, entre as quais se incluíam também funções religiosas”. As sinagogas de Israel serviam tanto à leitura em voz alta da Torá e ao ensino dos mandamentos, decerto inclusive ao ensino de crianças, como também à hospedagem de estrangeiros em cômodos especiais, presumivelmente, sobretudo de peregrinos judeus provenientes da diáspora. Dava-se ali a leitura semanal da Torá, seguida de tradução para o aramaico (Targum), ocasionalmente traduzia-se também para o grego; há a leitura dos profetas (Haftarah) e a recitação do Shemá.
Este recorte textual é, portanto pertencente ao gênero literário conhecido como apocalipticismo, sendo designado como uma corrente religiosa no judaísmo do período helenístico-romano e no protocristianismo. Vemos isso, pois é parte de um ideário que concebe a eminente presença do tempo final e o aumento do mal ou de tempos de tribulação e catástrofes cósmicas, a expectativa da ressurreição, de um juízo final sobre todas as pessoas; desenvolvem-se concepções mitológicas de uma figura de juiz celestial como a do “Filho do Homem” e, mais tarde, também de figuras messiânicas de um Salvador. No período da redação “lucana” observa-se todos esses elementos presentes e elucidados sob a pessoa de Jesus, o Messias, o Salvador.
A morte, o desespero, a catástrofe e a desilusão estavam à porta de Jairo, e ele vê em Jesus a possibilidade de solução para o Caos que se levanta em sua vida. Sua filha está à morte, o mundo não lhe apresenta soluções, ele é vazio, triste, monocromático. Jesus opta em dar-lhe ajuda; acalanto, esperança, mas a morte parece ser mais rápida e chega e no meio da multidão a notícia do falecimento de sua filha. “Não incomodes o mestre, sua filha está morta” (v. 49). O seu maior temor tomara forma, não há mais nada a ser feito, apenas “choro e ranger de dentes”. Mas mesmo frente ao Caos estabelecido, quando tudo parece determinantemente acabado e sem esperança, Jesus opta em TOCAR A VIDA da filha de Jairo. Como cristãos, temos imitado no líder e tocado a vida dos que jazeram sob este mundo?

ARGUMENTAÇÃO
1 - NÃO INCOMODE OS CRISTÃOS, O MUNDO ESTÁ MORTO.
Quantas vezes você e eu já ouvimos frases do tipo: “Esse mundo não tem mais jeito”; “esse mundo está perdido”; “nem Deus dá mais jeito nesse mundo”; ou ainda “do jeito que as coisas caminham o mundo está acabando”. Elas refletem a desolação e o Caos estabelecido no planeta, a desesperança que toma as pessoas e suga delas a força de lutar por um mundo melhor, mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. Essas pessoas buscam refugio post-mortis, no além-vida, no transcendente. Jairo e outros que o acompanhavam tiveram essa postura, ela até certo ponto é natural, presumível, mas não acaba aí. O texto aponta que todos choravam e pranteavam a morte da filha de Jairo (v.52), aparentemente nada mais podia ser feito, cabia àquele momento a resignação e conformação com o irremediável, a morte é o irremediável, aparentemente contra ele não há solução ou disfarces, a um mundo que está morto resta o choro e o pranto; até que, aqueles que têm em si o Jesus que é Cristo, optem em tocar o mundo morto. Nós repetiremos o verso 52b: “Não choreis; ela (o mundo) não está morta, mas dorme”. Assim como essas palavras causaram espanto por sua audácia naqueles dias, hoje causará o mesmo espanto. Santo espanto esse que reflete o amor dos cristãos por um mundo morto. Se analisarmos o texto como um quiásmo (poesia judaica) veremos que este é o centro do texto, seu coração. Os versos 51 e 52 são o cerne desta redação, o principal é a notícia de que, por mais que tudo pareça “deserto e desilusão”, Jesus noticia a esperança de dias melhores. Uma nova vida se levantará onde há a total e completa ausência de vida.
2 – A “GRAÇA” NOS IMPULSIONA A REMAR CONTRA A MARÉ
“E riam-se dele, porque sabiam que ela estava morta”. Eventualmente esse será o comportamento daqueles que não percebem a ação da graça de Deus e de uma ação efetiva dos cristãos. Isso pode parecer utópico, e quando observamos as circunstâncias que permeiam o movimento evangélico moderno, realmente o é. O número de pessoas que respondem ao censo do IBGE como evangélicas cresce notavelmente, da mesma forma que o mundo se afunda no Caos social. Pensar que o cristianismo pode mudar o mundo pode, e deve, provocar risos no mundo. Afinal, qual cristianismo mudará o mundo: O Cristianismo das Cruzadas que enviava crianças na frente do pelotão de batalhas por terem um número menor de pecados, e, portanto seriam mais efetivas para matar os mouros islâmicos; ou o cristianismo protestante que fomentou a morte de mais de 100.000 anabatistas na Alemanha do século XVI; ainda, quem sabe, o cristianismo que apoiou o nazismo e a ação imperialista contra os africanos, julgando que nem judeus, nem negros, nem índios são seres humanos por completo, portanto, são indignos da “Graça” de Deus; ou mesmo o cristianismo de uma bancada evangélica que teima em envolver-se em escândalos de corrupção e ainda oram pela “santa propina” recebida. Nenhum desses cristianismos poderia mudar o mundo, apenas o cristianismo que imita Jesus pode dar uma lufada de esperança para o mundo morto, o cristianismo que entra no quarto, toma o defunto nos braços, toca-o com amor, carinho, afeto, dedicação e, aí sim diz: “Levanta-te” (v.54). Porque é esse Espírito Santo, essa força que dissipa as trevas, que elimina o mal, abomina a morte que traz vida ao mundo. É o cristianismo de um Jesus que não teme tocar o morto, se aproximar dele, que pode trazer vida, esperança, quem sabe de uma forma definitiva.

PERORATIO
A persistência de Jesus em tocar a vida da filha de Jairo surpreende a todos (v.56). É urgente que, como cristãos, aprendamos a tocar as vidas, mundo que nos cerca, a sociedade que nos envolve. Evidentemente notaremos que vários nos ridicularizarão, talvez porque seus olhos estejam fitos nos cristãos que ao invés de tocarem as vidas as afligiram, ocasionando mais morte e desilusão, mas quando entendermos que nossa motivação não é nossa instituição denominacional, nossa bandeira eclesiástica, mas a “graça” de Deus manifesta por Cristo em nós e, principalmente a todo o mundo, eles verão que a religião não é o ópio do povo, no sentido de uma droga entorpecente que ilude os fracos, mas o Cristo ressurreto é o “suspiro dos oprimidos” e que a vivência desse Cristo no Cristão é, não mais ópio ilusório, mas cafeína pura, um forte energizante que nos impulsiona a fazer deste mundo um lugar de vida, harmonia, paz e, efetiva “graça” de um Deus que se manifesta no cotidiano.  E, somente aí, poderemos começar a pensar em resgatar as almas. Mas isso é assunto para uma próxima conversa.

Nele, que nos impulsiona a viver...
Thiago Barbosa

domingo, 10 de abril de 2011

Em homenagem aos conservadores: uma simples pastoral

Nos tempos primordiais da história Israelita, o povo, ainda em organização tribal e de parentesco, relacionava-se com Deus de forma muito especial, mesmo que simples. O Deus de Israel, naquele momento, era Deus que se fazia presente no meio do povo, que caminhava junto do povo atendendo suas necessidades básicas de sobrevivência. Enfim, as pequenas famílias nômades viviam em total dependência do Deus que se revelava a eles. Havia um relacionamento próximo e contínuo, cotidiano, imediato, como a relação familiar. Para o povo primitivo, Deus tinha feições familiares: era considerado como um membro da família. Isso pode ser observado na vida dos Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó e nas narrativas sobre o povo no deserto após o êxodo.


Quando Israel se torna, então, uma grandeza histórica, a preocupação fundamental dos governantes do povo era de que se construísse um lugar fixo, um lugar específico para a adoração a Deus; o mesmo Deus que caminhou junto ao povo em todas as suas “andanças” pelo mundo. Ele, agora, seria o Deus nacional. Deus agora teria um lugar certo e somente lá, na “Casa de Deus”, o povo poderia relacionar-se com Ele. O acesso a Deus fica restrito ao Templo, mediado por sacerdotes, fixado ali. O povo agora se relacionaria com um Deus majestoso, como um Grande Rei - um tanto distante - que exigiria obediência e sacrifício.

Mas, com a “plenitude dos tempos”, aparece Jesus. Homem simples e humilde, revelando um Deus diferente: “Quando quiseres orar entra no teu quarto mais retirado, tranca a tua porta, e dirige a tua oração ao teu PAI que está ali, no segredo. E teu PAI, que vê no segredo, te retribuirá” (Mt 6,6). PAI: é assim que o Senhor Jesus chama a Deus, o Abba, o paizinho.

Deus, como Pai atento, é a figura da família, da intimidade, do quarto secreto, onde ouço e sou ouvido. Diferente da concepção judaizante do Deus nacional - Rei distante - o Deus revelado em Jesus volta a ter feições familiares como nos tempos primordiais. Ele busca a religiosidade interior, pessoal, e nos faz filhos cuidados e protegidos por Ele. Esse Deus-Pai não tem um lugar fixo para se manifestar a seus herdeiros: “nem no monte e nem em Jerusalém”, mas é na vida, no cotidiano, “em espírito e em verdade”.

Que nossas escolas dominicais e nossas dinâmicas educacionais, como um todo, nos dirijam a um relacionamento com o Paizinho, na vida, na caminhada.



Nele, nosso Abba



Jonathan Pereira

terça-feira, 22 de março de 2011

Missão e teologia


Pensando sobre a igreja nos dias de hoje, vemos a necessidade de se arrolar novamente valores que foram fundamentos durante toda a tradição da igreja, valores estes que foram basilares na história da igreja, como a conhecemos. A inserção do cristianismo sob uma ótica holística de mundo, mais como experiência com o sagrado do que a construção dogmática sistematizadora de uma religião. O sujeito religioso moderno comumente abdica da possibilidade racional para, de forma apática, abraçar-se à dogmática religiosa. Tal ato de insensatez, cometido não só modernamente, mas durante toda a história cristã (obviamente generalizo a fim de possibilitar análise), fez com que a religião assumisse uma perspectiva distante e austera do mundo. O cristianismo tornou-se alheio ao mundo de onde ele emanou e para onde ele foi pensado. A força ganha pela expressão “fugir das coisas do MUNDO” causou, aos cristãos, condutas que os tornaram alienígenas em seu próprio mundo, sua mensagem já não condiz com aqueles para a qual foi pensada, ela enfim caducou.   O desafio da presente igreja é embebedar-se do MUNDO que a cerca, interpretando e revisitando seus valores e filosofias, e repaginando sua mensagem. Nesse sentido é necessária uma teologia apofática, em um primeiro momento, onde a igreja se disponha às dores e dúvidas existenciais e profundas do MUNDO. Após internalizar tais sentimentos, elaborar suas posições e ações, falando, finalmente, de forma efetiva do Cristo e para os quais Ele veio, todos.

Neste sentido, embebida de MUNDO e ciente de que fala deste e para este, a igreja põe-se a dialogar com a cultura, forma máxima de expressão dos povos e, sem dúvida, linguagem prismática que também forma a própria igreja. Em sua essência estão os pressupostos da vida e da liberdade. A igreja deve em síntese ser vida e liberdade, sua ação deve refletir esses ideais, seu discurso deve ser perpassado desses ideais, sua vida deve transparecer esses ideais e é para esses ideais que se deve trabalhar. Porém o cristianismo, que é vida e liberdade e era intimamente envolto ao povo e às culturas deste, tornou-se refém do Capital, gerando a morte. Os arroubos numéricos e de resultados das comunidades de fé, refletem o perigo de perder-se no MUNDO sem os princípios basilares de vida e liberdade. A religião inicialmente subversiva e popular preocupada com a igualdade do ser humano viu-se refém de seu sentimento de vaidade e apresenta-se Burguesa. Nesta religião burguesa, o futuro messiânico se acha gravemente ameaçado. E isto em primeira linha, não porque se converte em pacificação e consolação, em ópio para aqueles que nada têm e que são sem futuro, mas porque serve para confirmar e fortalecer aqueles que já têm e possuem; aqueles que são, de qualquer maneira, ricos de perspectivas e de futuro neste mundo. A igreja é, neste sentido, voz profética de um mundo refém do Capital e morto pelo mesmo; chamando à vida e à liberdade seus seres formadores, as pessoas, e mantendo esta condição sine qua non para sua existência.

O cristianismo deve entender-se não como multifacético em seus milhares de rixas e divergências, mas assumir-se como unidade que milita a vida e liberdade. A perspectiva unitária do proto-cristianismo ocasiona a diminuição das distorções e a dissipação aleatória de forças em abordagens vis e focaliza os esforços em prol das “gentes”. Assume-se a construção de um mundo, não vindouro, mas presente; onde todos cristãos ou não têm vida e liberdade, valores apregoados por humanos, nãos apenas sujeitos religiosos. A ação missionária, a missão, não é de modo algum produto exclusivo de uma denominação ou linha dogmática; ela é produto do ser humano, mais amplo que o sujeito religioso, afinal já não seria mais possível discernir entre sujeito humano e sujeito religioso, pois ambos refletiriam a mesma essência, a vida e a liberdade como mensagens humanas, como mensagem cristã.

Thiago Barbosa

sábado, 5 de março de 2011

O profeta Assembleiano

Eis alguém corajoso e consciente do perigo que a religião pode se tornar ao assumir o lugar que não lhe é devido desde os grandes movimentos europeus do século XVI: o Estado. Ricardo Gondim é corajoso. Olha no espelho e reconhece que as vozes que clamaram nas eleições pelo cristianismo no poder são seus irmãos e, com uma sinceridade profética, avalia sua própria carne, sangue do seu sangue. Reconhece que um governo evangélico nos recolocaria numa masmorra medieval. Um belo exemplo de autocrítica.



Deus nos livre de um Brasil evangélico


Ricardo Gondim






Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.


Soli Deo Gloria

 
 
 
 
PS. John Locke não está sozinho!
 
 
Jonathan





































Certeau e seu Deus


Alguns pensadores tem a sublime capacidade de, em poucas palavras, definir realidades e situações de extrema complexidade. Deus é algo de extrema complexidade. Nosso esforço em toda a história é, e talvez sempre será, o de criar símbolos que expressem a realidade de Deus no intuito de ao menos, de alguma forma, podermos possuí-lo.



"O Deus da minha fé não cessa de frustrar e guiar o desejo que busca

compreendê-lo. Ele o frustra porque nada do que eu sei é ele. Ele o guia

porque eu não o esperava lá onde ele vem... ele só é o Mesmo aparecendocomo Outro"

(Michel de Certeau)



Jonathan

sexta-feira, 4 de março de 2011

Encantamento ainda


Na verdade fico feliz quando algumas coisas que penso começam a ser discutidas pelas mentes pensantes do nascente seculo XXI. Digo isso porque tenho acompanhado, entre muitas outras discussões,  a discussão sobre o desencantajmento e o re-encantamento do mundo. Como o disse um ex-professor, a Europa havia decretado o desencantamento do mundo logo após as grandes transformações cinentíficas, filosóficas e tecnológicas advindas do bombástico século XIX. Em outras palavras, toda a magia e sacralidade, toda a visão metafísica do mundo tornou-se uma impossibilidade.Com isso, podemos dizer, o mundo se desencanta.

Mas parece que há um movimento, liderado por filósofos consideravelmente reconhecidos por grande parte dos pensadores atuais, que insistem em propor  a existência ou a ocorrência de um fenômeno: a volta ao encantamento. Para alguns, isso é uma falácia. Pesquisadores como o Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro, Teólogo Batista, defendem a posição de que o mundo nunca se desencantou, ao contrário, somente parte da Europa o disse, o vivenciou, em parte, não toda Europa, muito menos todo o mundo. A religião para o Dr. Ribeiro, nunca deixou de existir, nunca. E eu concordo.

Como afirmei no começo, gosto de saber que as coisas pelas quais tenho refletido permeiam o pensamento dos pensadores. Saber que a magia, a sacralidade - porque não dizer a religião - não morreram, ao menos no imaginário das muitas sociedades no mundo e nas discussões dos intelectuais. Isso fortalece a ideia, a qual tenho desenvolvido em meus estudos, de que há no homem o desejo, a necessidade  de encontro, a curiosidade,  o querer sobre o Incondicionado, sobre o Mistério. Está em nossa constituição a partícula sagrada de uma preocupação última, que nos toca e nos leva a uma cosmovisão teônoma do cosmos e da existência. Mesmo que o sagrado nã esteja na coisa em si, está, ao menos, em nossos olhos.

Esse interesse pelo que nos toca incondicionalmente, pelo Uno indivisível, mas que pode ser encontrado aqui e ali, pelo sagrado invisível e também palpável, escondido e revelado, é, sim, coisa humana.
Boas palavras essas, as de

Por isto não ‘creio’, nem ‘descreio’.
Descobri um outro ‘jeito’: sei…
E quando se sabe, não tem como mudar de opinião, já que não é uma opinião. Faz parte de mim, assim com respirar e ter ossos, que com a maturidade chegando doem...
E estas experiências, momentos de êxtase, satori ou samadhi, como se diz na Índia, não tem como descrever. Não tem como transferir…
Não cabe em nenhum livro, nem é minha realidade atual…
Já dancei com ‘algo’ que me elevou aos ‘céus’ e ao mesmo tempo, sentia meus pés bem firmes no chão.
Por isto gosto muito da expressão dos Sufis: La ilaha illa ‘llah, que eu resumo assim: só existe deus. Só deus é!

(José Bosco dalla Pietá Carvalho - 03/04/2007)
Jonathan