A arte de pensar livremente

A arte de pensar livremente
Aqui somos pretensiosos escribas. Nesses pergaminhos virtuais jazem o sangue, o suor e as lágrimas dos que se propõem a pensar com autonomia. (TeHILAT HAKeMAH YIRe'aT YHWH) prov 9,10a
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quem é Jesus?


Dias atrás, um domingo pela manhã, como tantos outros me pus de pé para começar a preparar minhas aulas de segunda-feira. Sim, esta é a sina de um professor, trabalhar mesmo fora do local de trabalho, mas não reclamo, são nesses momemtos que tenho contatos comigo mesmo e com o conteúdo que, antes de se apresentar aos alunos, deve inevitavelmente apresentarsse-me antes. Mas naquela manhã não seria assim tão simples, graças a um adepto do Salão das Testemunhas de Jeová.

Um senhor, já passado dos setenta anos, as rugas no rosto e as madexas brancas já se apresentavam como evidências da idade, apresentou-se à porta. Já suado da caminhada por outras casas antes da minha, mas ainda com o bom sorriso interorano, perguntou-me rapidamente como eu estava e se já havia ouvido falar de Jesus. Não, no momento não me veio nem uma só resposta mais complexa à mente, apenas disse que já tinha ouvido falar de Jesus, mas que não o conhecia bem. Sempre sorridente o “senhorzinho” me deu os exemplares da revista SENTINELA e DESPERTAI, e foi-se prometendo que nas revistas eu encontraria com Jesus.

A minha resposta naquela manhã foi recheada de sarcasmo, caso fosse-me apresentado uma visão particular de Jesus, ela teria sido criada mediante a tradição denominacional daquele senhor, e eu a conheceria, mas não me restringiria à ela. Caso me apresentasse um Jesus “novo”, poderia recuar à visão traditiva que me apresentaram desde a infância. Minha resposta dúbia, sarcástica, reflete também o sentimento que tenho como teólogo, afinal, essa é uma pergunta pertinente: Quem é Jesus?

Como personagem histórico, “factual (?)”, o Jesus passa a ser uma expeculação, tomando os textos de John D. Crossan a discussão sobre o JESUS HISTÓRICO se estenderia por mais um século, e possivelmente estaríamos deslizando sobre um lamaçal de “achismos”, afinal dados que evidenciem a historicidade (talvez um conceito que nos ajude nesse momento seja Geschitche) de Jesus não reflete a relação popular, a construção memorial do povo com o Jesus traditivo e/ou com o Cristo da fé.

Correndo o risco de sermos simplórios podemos fazer vários apontamentos sobre Jesus:
1 – Ele foi apenas mais um judeu;
2 – Foi um espírito “iluminado” não um homem verdadeiro, de carne e osso, mas um espírito que esteve entre a humanidade;
3 – Um homem, efetivamente um homem, mas soberano em boas ações, alguém que se condoía com as massas populares, os estratos mais baixos da sociedade de sua época;
4 – Possivelmente foi um agitador de massas, um revolucionário político, que por meio de ações carismáticas mostrou sua indisposição contra o comando governamental de sua época, um agitador que questionava o status quo de sua época;
5 – Um simples carpinteiro, um trabalhador braçal, insatisfeito  com sua religião e que pôs-se a questioná-la e reinterpretá-la.

Todas essas são visões possíveis, em determinado aspecto todas podem inclusive tocar-se, aproximarem-se. Mas evidentemente, ainda simplificam demasiadamente a percepção de Jesus em meio ao povo de hoje.

Podemos restringir nossas observações ao “cristianismo moderno”, e perguntar quem é Jesus para as denominações cristãs. Certamente teremos também várias respostas, pois cada denominação cristã “pintará” Jesus com suas próprias cores, seus próprios matizes, seus pincéis serão os dogmas e as tradições denominacionais. Batistas, metodistas, presbiterianos, luteranos, católicos, e todas as demais denominações terão, traditivamente, o Jesus sob seus matizes doutrinários e dogmáticos. Não é difícil de entender isso, Jesus sempre teve a sua imagem aproximada dos grupos aos quais ele foi apresentado. Na Europa medieval Jesus assume características européias.
 
                                                    
Nos Estados Unidos não seria diferente,  de igual modo ocorreria na Ásia,  na África . Em nós, como seria o Jesus Latino? Talvez com o rosto de nossos indígenas?

Evidencia-se então que, em qualquer sociedade ou grupo a imagem de Jesus é revista, reinterpretada e aproximada ao grupo social de inserção. A imagem do cristo é eurocêntrica no Velho Continente, é do conquistador Norte americano, é de olhos “puxados” na Ásia, o negro africano, ou mesmo o povo da floresta na América Latina. A imagem histórica de Jesus é refém da percepção sociológica, é refém da hermenêutica do povo que o insere e o busca.

Jesus, ou ao menos sua imagem, sempre se apresenta próximo de nós, por isso tantas imagens de um mesmo homem, é a nossa necessidade de vê-lo como um de nós. Assim, a imagem de Jesus é relativa ao grupo de inserção. Mas este não é um fenômeno moderno, os evangelhos já apontavam para essa reconstrução imagética de Jesus.

Para minha exposição me atenho ao texto alocado no evangelho de Marcos 8.27-30.

Mc 8.27 – Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe, e no caminho, perguntou a seus discípulos:”Quem dizem os homens que eu sou?”
Mc 8.28 – Eles responderam:”João Batista; outros Elias; outros ainda, um dos profetas”. –
Mc 8.29 – “E vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”.
Mc 8.30 – Então proibiu-os severamente de falar a alguém a seu respeito.

Alguns aspectos gerais podemos observar com alusão em outras passagens, Jesus era um Judeu, pertencia formalmente a este viés religioso; era membro dos estratos sociais inferiores sendo um carpinteiro, marceneiro, ou mesmo pedreiro; teve seu nascimento envolto em uma controvérsia já que a explicação de ser “filho do Espírito” não foi bem vista; era tido como um mestre, um rabino itinerante, caminhando pelo terreno árido trazendo esperança e confrontação em seus discursos.

Caso Jesus não fosse assim mesmo, esses são aspectos demonstrados pelos escritos canônicos, aos quais a sociedade toma conhecimento. O personagem Jesus é acessado por esses escritos, bem como o aspecto crédulo de cada fiel.

Chamo a atenção para a resposta dada à arguição de Jesus. Ela demonstra que este é um texto escrito posteriormente, e retropojetado aqui, ainda por um motivo desconhecido. Possivelmente já tenham a intenção de apresentar desde aqui Jesus como o Cristo, e essa afirmação vinda de Pedro denota a reconstrução da imagem desse personagem, que pode ter sofrido desgaste pela ação paulina, ou mesmo em outras passagens onde, por exemplo, Pedro teria “negado”Jesus. É importante que Jesus seja O CRISTO, justamente apontado por Pedro.

Mas aqui iremos por parte, esses poucos versos tem a intenção, e o fazem com grande propriedade, de apresentar a imagem de Jesus. Aqui todos os matizes se encontram, e são três os matizes: João Batista, Elias e os profetas, e O CRISTO.

A primeira resposta obtida é que jesus é João batista. Historicamente é provável que Jesus não tenha apenas se submetido ao batismo de João, mas também tenha integrado o seu círculo de seguidores. Isso pode se evidenciar na abertura do texto Marcano, onde Jesus é batizado por João e assume sua posição de agente retórico junto ao verso de Mc 1.14-15. O texto sugere que após o aprisionamento de João é Jesus seu sucessor direto, tendo o cuidado de que Jesus tenha o mesmo discurso de João, o arrependimento.

Jesus faz parte então do movimento profético-carismático, especialmente as curas e os exorcismos miraculosos apontam para isso. Mas Jesus reinterpreta as experiências carismáticas, afinal a expressão “ a tua fé te salvou” torna-se constante, como uma chave retórica ao final das ações miraculosas. Jesus é então aquele que comumente está envolto aos milagres, às curas, aos exorcismos, mas além disso fala sobre o arrependimento. É sucessor do movimento profético-carismático do “Batista”, mas antes reinterpreta-o, revive-o, transcende-o para algo maior que as maravilhas.

Hoje muitos cristãos vêem Jesus apenas pelo viés das curas, dos exorcismos. São reféns de uma prosperidade financeira miraculosa. Sim, certamente Jesus estava envolto em eventos extraordinários, incompreensíveis aos olhos do povo simples, mas que atingia em cheio suas expectativas. Jesus era agente do imediatismo dessas gentes, era agente da cura, agente da saciedade, agente libertário. Mas diziam muito mais sobre Jesus.

O segundo apontamente feito é que Jesus é Elias, ou, um dos profetas. O profeta, é um agente que traduz as necessidades das gentes sob o oráculo de Deus. Assumem a necessidade humana como anseio divino, e seu discurso, sua fala, é nesse sentido. Assim, o profeta expressa sua liberdade em relação ao passado quando reinterpretam a tradição, chegando até a inverter o sentido das palavras “originais”. Jesus como Elias assume para si o principal posicionamento desses personagem. O confronto de Elias se deu com a concretização do primeiro mandamento. A indisposição do profeta com os “baalistas” é quanto à exclusividade cúltica de Yaweh. Elias retorna veementemente ao decálogo da aliança, Jesus representa esse retorno também, porém, reinterpretado, revivido, transcendido às gentes de sua época. O primeiro mandamento é sim o exclusivismo cúltico à Yaweh, mas há agora a complementação retórica, ame ao teu próximo como a ti mesmo. Reintegração da tradição, vivência do presente, tudo em favor da vida e da libertação do povo.

Os temas da crítica social do profetismo de Israel em muito se aproximam dos dizeres de Jesus:
1 – A temática da opressão sofrida pelos pobres é uma constante nos relatos sinóticos;
2 – A denúncia da fraude comercial;
3 – O acúmulo de casas e terras;
4 – Edificações e construções luxuosas à custa dos pobres;
5 – O luxo com sinal de arrogância;
6 – Quebra do direito, sumamente com os menos favorecidos;
7 – Abuso da força e do poder contra os de estratos sociais inferiores;
8 – O cuidado especial ao estrangeiro, à viuva, ao órfão, enfim, aos que necessitam do cuidado.

O sermão da Montanha pode resumir bem o caráter profético de Jesus, e nisso o povo se apoiava e tinha sua expectativa. Jesus é profeta ao reinterpretar os seus dias e se colocar ao lado dos mais necessitados. Mas ele transcende a necessidade do corpo, ele ultrapassa o anseio social. Sim, a imagem de Jesus toma para si a figura do profeta, mas transcende-o. Jesus é mais que um profeta.

Certamente a última resposta ao questionamento de Jesus é a mais interessante, Jesus é O CRISTO. É essa afirmação que denota a retroprojeção do texto, o conceito messiânico traz consigo a força da ressurreição, portanto para que Jesus fosse tido como o CRISTO sua morte e ressurreição já deveriam ter sido evidenciadas por seu círculo de seguidores.

Jesus não via o juízo de Deus já se realizando, mas o domínio de Deus chegando, e isso não por acaso em pessoas que estão em necessidade. As aparições de Jesus, essas epifanias foram entendidas como aparições de Jesus a partir do céu. No entanto, de acordo com a interpretação de seus adeptos, Jesus não foi simplesmente trasladado ao céu como João Batista ou outros mártires antes dele. Antes, a ressurreição representa para eles, ao mesmo tempo sua elevação a uma posição celeste de domínio como “Filho de Deus” e “Senhor”. Decerto é também neste contexto que Jesus é situado dentro a tradição messiânica de Israel como “Christós”. De acordo com a fé de seus adeptos, como ressucitado e elevado a Deus, ele está preparado para estabelecer em seguida o seu domínio sobre Israel.

A morte de Jesus e sua ressurreição, de modo semelhante ao que já sucedera com o martírio do "Batista", são entendidas como uma etapa decisiva a mais no drama histórico-salvífico, sendo que se atribui ao próprio Jesus, nesse tocante, um papel de relevância permanente, desempenhado agora a partir do céu. Na tradição, essa “cristologização” ou “messianização” de Jesus é retroprojetada para o Jesus terreno, como é o caso da passagem que estamos averiguando. Assim, mesmo em vida, Jesus é também o “ha mashiah”, o “Christós”, aquele que trará a definitiva resolução aos problemas do povo de Israel.

De acordo com a fé de seus adeptos, como ressucitado e elevado a Deus, Ele está preparado para estabelecer em seguida o seu domínio em Israel.

Jesus tem consigo, ainda em vida, as dores da cruz a morte e a ressurreição; é também o filho de Deus, libertador, resgatador da humanidade para um mundo novo, redimido. Jesus, então visto como Cristo, torna-se o centro da salvação humana.

Talvez sejamos questionados sobre Jesus. Quem é Jesus, várias são as respostas possíveis, várias foram as respostas dadas a Ele mesmo em seus dias de caminhada em meio ao povo. Certo é que a imagem de Jesus é relativizada junto ao grupo social que inserimo-nos. Jesus é João Batista, é o agente da cura, da libertação dos espíritos imundos, é o agente miraculoso da fé tangível. Mas é muito mais que isso, Jesus é João Batista, mas transcende-o.

Jesus é Elias e os profetas, é a reinterpretação da Lei, é a disposição ao lado dos necessitados, famintos, excluídos, é aquele que caminha com os que estão à margem. Jesus é a disposição ao lado das gentes, dos povos de Israel, do Crescente fértil, mas não somente lá, aqui também, é Jesus , como profeta, que se dá a conhecer aos povos latinos. É Jesus, que alia-se aos uruguaios, argentinos, mexicanos ou Cubanos. É Ele que esteve com os povos indígenas massacrados pela imposição do poderio imperialista ibérico. É ele que ainda está nos acampamentos de trabalhadores sem-terra, ou mesmo com os povos da floresta que anseiam por suas terras. É Jesus como profeta que vai de encontro ao grito dos favelados e sertanejos do Brasil. Sim, Jesus é Elias e os profetas, mas transcende-os.

Jesus é enfim, o Cristo. É a esperança da fé, da redenção. É a esperança que se impõe contra o mau d’alma humana.Cura d'Alma. Jesus Cristo é a esperança daqueles que anseiam por dias melhores, plenos, repletos, da graça e da soberania de Deus. Mesmo sob um mundo desesperançado, com Jesus, O CRISTO, há de vir a esperança, e redimir nossas vidas para a plenitude. Opioso esse posicionamento? Mediante a causticidade dos dias, resta-nos o sonho, o suspiro, o ópio de um Deus que se manifesta na humanidade de Jesus, que é mil em perspectivas imagéticas, mas que se apresenta à esperança humana da vida. Se Jesus é relativo, O CRISTO é absoluto.

Com fé e esperança, N’Aquele que é o Cristo.
Thiago Barbosa

sábado, 5 de março de 2011

O profeta Assembleiano

Eis alguém corajoso e consciente do perigo que a religião pode se tornar ao assumir o lugar que não lhe é devido desde os grandes movimentos europeus do século XVI: o Estado. Ricardo Gondim é corajoso. Olha no espelho e reconhece que as vozes que clamaram nas eleições pelo cristianismo no poder são seus irmãos e, com uma sinceridade profética, avalia sua própria carne, sangue do seu sangue. Reconhece que um governo evangélico nos recolocaria numa masmorra medieval. Um belo exemplo de autocrítica.



Deus nos livre de um Brasil evangélico


Ricardo Gondim






Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.


Soli Deo Gloria

 
 
 
 
PS. John Locke não está sozinho!
 
 
Jonathan