A arte de pensar livremente

A arte de pensar livremente
Aqui somos pretensiosos escribas. Nesses pergaminhos virtuais jazem o sangue, o suor e as lágrimas dos que se propõem a pensar com autonomia. (TeHILAT HAKeMAH YIRe'aT YHWH) prov 9,10a
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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Uma crônica do Natal - Chico Anysio

Ao lançar seu olhar para o natal, Chico Anysio mostra sua hermenêutica popular do evento natalício, e assim, aponta para sua visão de volta à Deus. Interessantíssimo. Thiago Barbosa

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

NOVAS HERMENÊUTICAS: O CRISTIANISMO SE TORNANDO ETERNO

A cultura não é uma grandeza estanque. Nela estão revelados todos os valores que regem e direcionam uma comunidade. Sendo assim, as variações existentes dentro de um grupo social serão, necessariamente, refletidas nos princípios e valores adotados e apregoados em uma cultura especifica.

O cristianismo primitivo, ainda nos idos do século I d.C, mostrou-se pronto em se “inculturar”, mostrando a universalidade da ação de Deus encarnado em Jesus. A promessa especificamente feita aos judeus transborda as barreiras étnicas e geopolíticas alcançando agora também os gentios. Nesse aspecto, Paulo de Tarso foi brilhante, um exímio leitor de sua sociedade e re-interpretador das verdades cristológicas. O mundo deve isto a uma hermenêutica paulina, pronta em verificar as especificidades de um povo e apresentar um evangelho condizente com tais culturas.

Essa hermenêutica paulina, que alcança boa parte da Ásia Menor - uma área incrivelmente extensa mesmo para os dias atuais - era acolhida por estas culturas, pois condizia enormemente com sua realidade. O evangelho era, e ainda é, uma grandeza que vai de encontro às necessidades mais profundas do ser humano. A Bíblia, como palavra de Deus, de igual modo deve ir de encontro às necessidades mais profundas das pessoas. Assim, ela não pode apenas mostrar-se presa a uma realidade histórica estagnada à sociedade que a escreveu, porém deve renovar-se a cada dia com a interpretação dinâmica e pró-ativa daqueles que se dispõe a assumi-la como palavra de Deus. As necessidades humanas das culturas modificam-se em suas especificidades, contudo os princípios formadores dessas necessidades, desses anseios, continuam os mesmos, No Crescente Fértil da Palestina, nas cidades da Ásia Menor, o existencialismo europeu moderno, o fundamentalismo econômico e religioso da América do Norte, ou ainda as dores da opressão da América Latina. Todos, em seus princípios formadores, encontram-se exemplificados nas linhas do texto bíblico. Lá se arvoram as descrições de um povo que conheceu a guerra, o exílio, as tormentas climáticas, os desmandos econômicos, a distorção da justiça, a iniqüidade e desesperança mais profundas; todavia, lá também se encontra a relação proximal com Deus, bem como sua encarnação na própria humanidade corrompida por intermédio de Jesus Cristo. No fim da desesperança que fundamenta o desenvolvimento de uma cultura há o surgimento da esperança. Uma luz no fim do túnel.

Na clara definição de que Deus se manifesta de maneira holística junto a cultura dos homens, devemos estar prontos para re-interpretar, re-analisar, re-visitar os dizeres dos textos bíblicos e estarmos prontos para torná-los palavras de vida, que superam a temporalidade dos quase dois milênios que nos distanciam do evento cristológico. Aqui, no século XXI, a Bíblia ainda fala, com a mesma força e profundidade que falava aos judeus que a produziram, porém atingindo as especificidades de nossos tempos, de nossa cultura.

Deste modo é urgente que nos preocupemos com as interpretações que surgem já desde o século XX. A interpretação da cultura por Paul Tillich, por exemplo, deve ser de constante consulta, pois o cristianismo deve sim condizer com as mudanças características e específicas dos nossos dias, de igual modo a morte prematura de Dietrich Bonhoeffer impediu-nos de compreender melhor seu “cristianismo arreligioso” de um mundo que se tornou adulto. A teologia da esperança em Moltmann e Rubem Alves que culmina anos depois na teologia da Liberação em Gustavo Gutierrez e os “irmãos Boff”, desdobrando-se nas difusas formas de libertação de grupos minoritários que são oprimidas por uma sociedade culturalmente estabelecida. Nasce da Teologia da Libertação a teologia Negra, a teologia Feminista, a teologia Indígena, a teologia de Movimentos Campesinos, ou mesmo teologia Operária. Mais recentemente as urgências do repensar sobre o meio ambiente emolduram a teologia ecológica, exemplificada por Leonardo Boff e Haroldo Reimer.

Há também a controversa - e que infelizmente (a meu ver) torna-se comum não só no Brasil, mas no mundo - que é a teologia da prosperidade, onde a força do capitalismo ganha espaço em contraposição à conduta de cooperação e respeito que é condizente com o pensamento fundamental cristão. É a força econômica do capitalismo que ocasiona variantes no processo de interpretação para que a finalidade do indivíduo se sobreponha à necessidade da coletividade.

Percebendo as necessidades de um mundo moderno e a gigantesca possibilidade de interpretações para as complexidades modernas que surgem no texto bíblico observam-se que temas como desenvolvimento sustentável, sustentabilidade, racismo, ações transculturais, bullying, direitos das mulheres (lei Maria da Penha), Estatuto da Criança e do Adolescente, violência, justiça e suas distorções, guerra, crimes de guerra, política e posturas partidárias; todas estes e outros que eventualmente surjam tornam-se assuntos condizentes com os textos bíblicos e, portanto, assunto de abordagem para novas hermenêuticas.

Desse modo, trabalhar com educação nas comunidades de fé passa a ser uma caminhada feita a pequenos passos, cuidadosamente, sem ativismos e modelos pré-estabelecidos, pois, nesses moldes, observa-se a necessidade de reinterpretar e reviver a fé cristã e seus princípios fundamentais, dia após dia, passo a passo, até o dia em que Ele virá. Maranata, ora vem Senhor Jesus!



Thiago Barbosa

sábado, 27 de março de 2010

Olhar para a colina sob a perspectiva do "alto"

A brincadeira é a seguinte:
Osvaldo Luiz Ribeiro, coordenador da FABAT propôs uma brincadeira no blog oficial da coordenação...
1 - Qual será a perspectiva certa para, desde ela, olharmos a colina?








1.1 - Podemos considerar que é possível nos colocarmos nessa exata posição? (Diz ele que a resposta está na foto acima)
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Bem caro professor/coordenador-blogueiro, sua resposta (foto ideal) apresenta um apontamento imediato e penso ser a foto acima a perspectativa, repleta de esperança, desejo, vontade, ideologia e idealismos humanos. A vontade e o desejo de que o "sagrado", o "divino", "Deus", nos veja no centro de seu "horizonte metafisico" é, em perspectiva real, construto humano. Assumindo assim que o "centro de um horizonte metafisico" seja nossa vontade, e assumindo a realidade árdua de que não podemos conhecer, em aspecto real, as vontades divinas, estar com nossa colina na centralidade dos olhos de Deus é nossa esperança, nossos mais puros desejos, nossos mais ardentes anseios, e, infelizmente ou felizmente, não passam disso; esperança, desejo e anseio de que nossas vontades sejam a vontade de Deus.
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Para que não me denominem como "estraga prazeres", penso que esses sentimentos à respeito de Deus é que refletem nossas perspectivas sobre o "sagrado". Ver a colina no "centro dos horizontes divinos", penso ser necessário um exercício de expeculação que se dá sob a leitura do texto alocado em 1 João 4:20.
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Tomando a foto apresentada pelo professor Osvaldo como clímax da "Colina" para com Deus, creio ser necessário reconstruir os passos que nos levaram à tal sonhada condição. Para chegarmos a determinado local passamos por vários outros, nesse aspecto busco reconstruir a caminhada especulativa para o ápice da foto-tipo.
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1 - Olhar o mundo de uma forma globalizada, holística, sem pretensão de ser o centro das atenções.

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2 - É necessário observarmos a importância de nos tornarmos relevantes, no mínimo, regionalmente.


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3 - a)morro da formiga b)morro do salgueiro c) morro do borel

Perceber a real necessidade de sermos relevantes nas comunidades que nos cercam, carentes ou não, e na perspectiva das comunidades, de fé ou sociais, mostrarmos a identidade do "sagrado" como espelhos que refletem o objeto adiante de si.




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4 - Perdermos a esterilidade dos números em nossas congregações e observarmos a magnânima força que emana ausência de números. Enfim, notaremos que a força, gigantesca força, emana dos nomes, e não dos números.



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5 -Após seguir os sinais deixados na trilha para não nos perdermos na floresta de enganos, engodos, pântanos de egocentrismo, fétidos lamaçais dos declínios de caráter, das perspectivas financeiras. Quando enfim encontrarmos em nós mesmos necessidades e almejos, veremos que em nós mesmos há a possibilidade de, enfim, lermos 1 João 4:21.
Nesse dia, em que finalmente estaremos nus de nós mesmos olharemos para o alto.


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6 - aí, nesse fatídico dia, olhares do símbolo e do real, divindades metafísicamente oculta e humanamente concebida se entreolharão. Só então entenderemos a perspectiva da foto de uma Fabat "centralizada no horizonte metafísico" e só então, nesse feliz e interminável dia entenderemos o suspiro que emanou dos águas que entrecortaram o cáustico Israel: Este é meu filho amado em quem me comprazo (Mt 3:17b)





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Thiago Barbosa

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Imagem não é nada?

Interessante como os aspectos físicos do campo da estética corporal estabelecem padrões limítrofes em nossas experiências quanto ao discurso que nos é apresentado, seja este discurso fruto de produção religiosa ou não.

Anos atrás tínhamos um medo grotesco do Lula. Sua aparência quase que impunha suas opções marxistas, das mais extremadas possíveis, a vasta barba e os cabelos degringolados fizeram, creio eu, que ele perdesse as eleições contra Collor. Não foram poucas as pessoas que confessaram o assombro pelas vestes “revoltas” e aspecto “conspirador–comuna” de nosso atual presidente, fazendo com que ele perdesse a eleição em questão. Tempos depois, barbas negras e revoltas a menos, cabelos bem cortados e já grisalhos pelo tempo mensurável e experiência imensurável, Lula volta por “sobre a carne seca”. Elege-se pela primeira e consequentemente pela segunda vez. Não foram poucos os comentários sobre sua aparência. Interessante não ter eu percebido tanta mudança no discurso, mas parece que a aparência de Lula fez com que a intensidade do vermelho na flâmula petista tornou-a um pouco mais rósea, mesmo sendo o mesmo discurso em sua essência.

Hoje experimento a mesma situação e percebo como as pessoas nem ligam para o que você diz, mas sim para quem o diz. Optei por livre e espontânea vontade “tosar” as madeixas que me acompanhavam já durante três anos. Motivos? Minha total indisposição para o cuidado que é requerido. Os tempos de Heavy metal e diálogos com o mundo underground já não são uma constante. Por isso não senti nenhuma espécie de remorso durante o corte, talvez uma inerente saudade dos dias de show e encontros com os “irmãos de camiseta preta”. Com isso desconstruo a primeira argumentação que me foi apresentada, a de que cortei os cabelos por exigência da igreja ou por não suportar a pressão sobre minha aparência pouquíssima formal. Sinceramente, o mundo eclesiástico me pressiona por ainda requerer uma postura aceitável, portanto, fui pressionado, mas com muito respeito. Não fui exigido, ao contrário, fui questionado sobre o "porque" de ter cortado o cabelo pela minha igreja “mantenedora” ,que sempre se mostrou bastante acolhedora e benevolente para com minha aparência, embora soubesse da vontade de boa parte de sua liderança em me ver seguindo a mais formal etiqueta eclesiástica (eles não gostariam que eu o fizesse por qualquer motivo que não fosse minha própria vontade). A realidade do motivo é a de que o calor meridional de nosso país, bem como a não necessidade de me afirmar pela aparência me libertaram dos moldes modais que por ventura me sejam cobrados. Minha mais pura e completa vontade, ninguém teve nenhuma influência, por menor que fosse ,sobre meu novo visual.

Mas minha observação vem mediante o discurso que sempre me acompanhou e que sempre proferi, tanto nas comunidades de fé que eventualmente sou convidado a falar, como na academia e no próprio cotidiano. Interessantíssimo como as pessoas, confrontadas com o visual pouco convencional (parecendo um índio “Omeca” como diz o professor Osvaldo), tomavam meus dizeres como heresia, antibíblico, liberal em demasia. Sempre me coloquei a tentar saber os motivos desses dizeres, porém, assumo todas as responsabilidade sobre o que digo, portanto, sempre estive muitíssimo tranqüilo quanto a estas posições “contrárias”. Agora, após o novo visual, os comentários sobre meus dizeres deixaram de assinalar a heresia e abordam a “originalidade” nas hermenêuticas, esquecem-se do antibiblicismo e apontam a argumentação científica do texto, o evangelho “liberal em demasia” agora impacta o homem a perceber um evangelho que perpasse antes de tudo a consciência desse homem e sua relação pessoal com a divindade. Minhas pregações continuam sendo fruto dos meus medos, sentimentos, pensamentos, estudos, sempre dizem mais a meu respeito que ao outro. O que digo, digo antes a mim mesmo, posteriormente, os ouvintes estejam à vontade para uma analise do conteúdo do discurso e sua aplicação ou não na sua relação de pessoalidade com o divino. Parece que me tornei um excepcional preletor por ter cortado o cabelo. Em minha dura e fria análise continuo medíocre, afinal, não há grandes descobertas, apenas apontamentos sobre minha relação com Deus, tudo no campo da pessoalidade, da experiência pessoal, onde cada um é responsável por seu acesso ao Criador. Mesmo assim ainda ouço: Agora sim, esse é meu seminarista! Esse Será um “pastorzão”! (rs)Tudo por um corte de cabelo.

Acho que se Jesus tivesse visitado o cabeleireiro, talvez tivesse escapado de seus algozes, bem como de seu trágico fim terreno.


Thiago Barbosa