A arte de pensar livremente

A arte de pensar livremente
Aqui somos pretensiosos escribas. Nesses pergaminhos virtuais jazem o sangue, o suor e as lágrimas dos que se propõem a pensar com autonomia. (TeHILAT HAKeMAH YIRe'aT YHWH) prov 9,10a

sábado, 23 de abril de 2011

TOCANDO VIDAS, RESGATANDO ALMAS: uma perspectiva “graciosa” no cotidiano.


TOCANDO VIDAS, RESGATANDO ALMAS: uma perspectiva “graciosa” no cotidiano (Lc 8:40-41.49-56)

EXORDIO
(João Alexandre - Em nome da Justiça)
Só com muito amor a gente muda esse país
Só o amor de Deus pra nossa gente ser feliz
Nós os filhos Seus temos que unir as nossas mãos
Em nome da justiça, por obras de justiça
Quem conhece a Deus não pode ouvir e se calar
Tem que ser profeta e sua bandeira levantar
Transformar o mundo é uma questão de compromisso
É muito mais e tudo isso.

Busco nesse “poema musicado” de João Alexandre uma ilustração para a idéia que tentarei discorrer nesta noite. Evidentemente o mundo mostra-se caótico, mesmo aos olhos mais desavisados e inertes. Vimos na abertura deste congresso o testemunho do Pastor Carlinhos Félix o testemunho sobre o cuidado de Deus em livrá-lo do trágico “11 de setembro”. Infelizmente outras 2.996 pessoas não tiveram o mesmo livramento, vários destes cristãos como eu e você, mortos não pelas ações terroristas, mas sim pelo ódio oriundo do fundamentalismo religioso que aponta para a morte, antes de revelar em si a vida. Os desastres geológicos do Haiti, Chile e, recentemente, Japão mostram a fragilidade frente a uma força muito maior, as forças naturais que ocasionam fenômenos como os terremotos, maremotos, tufões e outros diversos fenômenos cataclísmicos que ocasionam a morte e a desesperança. Mais recentemente vemos a ação de uma mente inconseqüente que proporcionou as cenas de terror na escola em Realengo (RJ) deixando um rastro de medo e morte. Doze foram os mortos, incluindo o autor do ato, e uma enormidade de outras famílias traumatizadas com a gratuidade da violência dos dias atuais. (MIQUÉIAS 7:2 – Pereceu da terra o piedoso, e não há entre os homens um que seja reto; todos espreitam para derramarem sangue; cada um caça a seu irmão com rede).
É nesse contexto de profunda desesperança que nasce no Crescente Fértil a apocalíptica judaica, um estilo literário que retrata a dura vida do povo sob o julgo Greco-Romano e que, aponta em um mundo que ainda virá a sua esperança. O Messias haveria de vir, os mortos ressuscitarão e todo “choro e ranger de dentes” cessará. O texto que escolho para refletir juntamente com os irmãos é certamente fruto desse ideário. Trata da vida se sobrepondo à morte, uma perspectiva da “graça” no cotidiano das pessoas.

NARRATIO
Lc 8:40-41.49-56
O evangelho de Lucas trata-se, seguramente, de uma obra nascida da fé de uma comunidade e fundada sobre uma tradição. O autor usa como fontes de apoio o evangelho de Marcos, as testemunhas oculares e a tradição oral das pregações apostólicas. Seu autor é um intelectual metódico de linguagem relativamente pura e gentílico-cristão – e suas idéias denotam um interesse particular pelos gentios. Serviu-se do evangelho de Marcos e trata-se possivelmente de Lucas, companheiro de Paulo, contemporâneo de Mateus. Lucas olha a vida de Jesus retrospectivamente, não somente como historiador que deseja retraçar os eventos passados em sua ordem cronológica, mas como crente que sabe que a ressurreição de Cristo dá a tudo que precede o seu entendimento verdadeiro. Assim, Lucas torna-se o evangelho dos pobres e insiste sobre o universalismo do evangelho.
Aqui especificamente o autor relata a busca de Jairo, um chefe sinagogal, pelo restabelecimento de sua filha. O que basicamente sabemos deste homem deve-se ao que presumimos relacionado à sua profissão. O número de sinagogas na Palestina até o ano 70 d.E.c. deve ter sido pequeno. Mas as raízes das sinagogas não devem se encontrar, como se presume amplamente, no exílio Babilônico, mas numa instituição pós-exílica “que estava encarregada de realizar tarefas públicas, entre as quais se incluíam também funções religiosas”. As sinagogas de Israel serviam tanto à leitura em voz alta da Torá e ao ensino dos mandamentos, decerto inclusive ao ensino de crianças, como também à hospedagem de estrangeiros em cômodos especiais, presumivelmente, sobretudo de peregrinos judeus provenientes da diáspora. Dava-se ali a leitura semanal da Torá, seguida de tradução para o aramaico (Targum), ocasionalmente traduzia-se também para o grego; há a leitura dos profetas (Haftarah) e a recitação do Shemá.
Este recorte textual é, portanto pertencente ao gênero literário conhecido como apocalipticismo, sendo designado como uma corrente religiosa no judaísmo do período helenístico-romano e no protocristianismo. Vemos isso, pois é parte de um ideário que concebe a eminente presença do tempo final e o aumento do mal ou de tempos de tribulação e catástrofes cósmicas, a expectativa da ressurreição, de um juízo final sobre todas as pessoas; desenvolvem-se concepções mitológicas de uma figura de juiz celestial como a do “Filho do Homem” e, mais tarde, também de figuras messiânicas de um Salvador. No período da redação “lucana” observa-se todos esses elementos presentes e elucidados sob a pessoa de Jesus, o Messias, o Salvador.
A morte, o desespero, a catástrofe e a desilusão estavam à porta de Jairo, e ele vê em Jesus a possibilidade de solução para o Caos que se levanta em sua vida. Sua filha está à morte, o mundo não lhe apresenta soluções, ele é vazio, triste, monocromático. Jesus opta em dar-lhe ajuda; acalanto, esperança, mas a morte parece ser mais rápida e chega e no meio da multidão a notícia do falecimento de sua filha. “Não incomodes o mestre, sua filha está morta” (v. 49). O seu maior temor tomara forma, não há mais nada a ser feito, apenas “choro e ranger de dentes”. Mas mesmo frente ao Caos estabelecido, quando tudo parece determinantemente acabado e sem esperança, Jesus opta em TOCAR A VIDA da filha de Jairo. Como cristãos, temos imitado no líder e tocado a vida dos que jazeram sob este mundo?

ARGUMENTAÇÃO
1 - NÃO INCOMODE OS CRISTÃOS, O MUNDO ESTÁ MORTO.
Quantas vezes você e eu já ouvimos frases do tipo: “Esse mundo não tem mais jeito”; “esse mundo está perdido”; “nem Deus dá mais jeito nesse mundo”; ou ainda “do jeito que as coisas caminham o mundo está acabando”. Elas refletem a desolação e o Caos estabelecido no planeta, a desesperança que toma as pessoas e suga delas a força de lutar por um mundo melhor, mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. Essas pessoas buscam refugio post-mortis, no além-vida, no transcendente. Jairo e outros que o acompanhavam tiveram essa postura, ela até certo ponto é natural, presumível, mas não acaba aí. O texto aponta que todos choravam e pranteavam a morte da filha de Jairo (v.52), aparentemente nada mais podia ser feito, cabia àquele momento a resignação e conformação com o irremediável, a morte é o irremediável, aparentemente contra ele não há solução ou disfarces, a um mundo que está morto resta o choro e o pranto; até que, aqueles que têm em si o Jesus que é Cristo, optem em tocar o mundo morto. Nós repetiremos o verso 52b: “Não choreis; ela (o mundo) não está morta, mas dorme”. Assim como essas palavras causaram espanto por sua audácia naqueles dias, hoje causará o mesmo espanto. Santo espanto esse que reflete o amor dos cristãos por um mundo morto. Se analisarmos o texto como um quiásmo (poesia judaica) veremos que este é o centro do texto, seu coração. Os versos 51 e 52 são o cerne desta redação, o principal é a notícia de que, por mais que tudo pareça “deserto e desilusão”, Jesus noticia a esperança de dias melhores. Uma nova vida se levantará onde há a total e completa ausência de vida.
2 – A “GRAÇA” NOS IMPULSIONA A REMAR CONTRA A MARÉ
“E riam-se dele, porque sabiam que ela estava morta”. Eventualmente esse será o comportamento daqueles que não percebem a ação da graça de Deus e de uma ação efetiva dos cristãos. Isso pode parecer utópico, e quando observamos as circunstâncias que permeiam o movimento evangélico moderno, realmente o é. O número de pessoas que respondem ao censo do IBGE como evangélicas cresce notavelmente, da mesma forma que o mundo se afunda no Caos social. Pensar que o cristianismo pode mudar o mundo pode, e deve, provocar risos no mundo. Afinal, qual cristianismo mudará o mundo: O Cristianismo das Cruzadas que enviava crianças na frente do pelotão de batalhas por terem um número menor de pecados, e, portanto seriam mais efetivas para matar os mouros islâmicos; ou o cristianismo protestante que fomentou a morte de mais de 100.000 anabatistas na Alemanha do século XVI; ainda, quem sabe, o cristianismo que apoiou o nazismo e a ação imperialista contra os africanos, julgando que nem judeus, nem negros, nem índios são seres humanos por completo, portanto, são indignos da “Graça” de Deus; ou mesmo o cristianismo de uma bancada evangélica que teima em envolver-se em escândalos de corrupção e ainda oram pela “santa propina” recebida. Nenhum desses cristianismos poderia mudar o mundo, apenas o cristianismo que imita Jesus pode dar uma lufada de esperança para o mundo morto, o cristianismo que entra no quarto, toma o defunto nos braços, toca-o com amor, carinho, afeto, dedicação e, aí sim diz: “Levanta-te” (v.54). Porque é esse Espírito Santo, essa força que dissipa as trevas, que elimina o mal, abomina a morte que traz vida ao mundo. É o cristianismo de um Jesus que não teme tocar o morto, se aproximar dele, que pode trazer vida, esperança, quem sabe de uma forma definitiva.

PERORATIO
A persistência de Jesus em tocar a vida da filha de Jairo surpreende a todos (v.56). É urgente que, como cristãos, aprendamos a tocar as vidas, mundo que nos cerca, a sociedade que nos envolve. Evidentemente notaremos que vários nos ridicularizarão, talvez porque seus olhos estejam fitos nos cristãos que ao invés de tocarem as vidas as afligiram, ocasionando mais morte e desilusão, mas quando entendermos que nossa motivação não é nossa instituição denominacional, nossa bandeira eclesiástica, mas a “graça” de Deus manifesta por Cristo em nós e, principalmente a todo o mundo, eles verão que a religião não é o ópio do povo, no sentido de uma droga entorpecente que ilude os fracos, mas o Cristo ressurreto é o “suspiro dos oprimidos” e que a vivência desse Cristo no Cristão é, não mais ópio ilusório, mas cafeína pura, um forte energizante que nos impulsiona a fazer deste mundo um lugar de vida, harmonia, paz e, efetiva “graça” de um Deus que se manifesta no cotidiano.  E, somente aí, poderemos começar a pensar em resgatar as almas. Mas isso é assunto para uma próxima conversa.

Nele, que nos impulsiona a viver...
Thiago Barbosa

domingo, 10 de abril de 2011

Em homenagem aos conservadores: uma simples pastoral

Nos tempos primordiais da história Israelita, o povo, ainda em organização tribal e de parentesco, relacionava-se com Deus de forma muito especial, mesmo que simples. O Deus de Israel, naquele momento, era Deus que se fazia presente no meio do povo, que caminhava junto do povo atendendo suas necessidades básicas de sobrevivência. Enfim, as pequenas famílias nômades viviam em total dependência do Deus que se revelava a eles. Havia um relacionamento próximo e contínuo, cotidiano, imediato, como a relação familiar. Para o povo primitivo, Deus tinha feições familiares: era considerado como um membro da família. Isso pode ser observado na vida dos Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó e nas narrativas sobre o povo no deserto após o êxodo.


Quando Israel se torna, então, uma grandeza histórica, a preocupação fundamental dos governantes do povo era de que se construísse um lugar fixo, um lugar específico para a adoração a Deus; o mesmo Deus que caminhou junto ao povo em todas as suas “andanças” pelo mundo. Ele, agora, seria o Deus nacional. Deus agora teria um lugar certo e somente lá, na “Casa de Deus”, o povo poderia relacionar-se com Ele. O acesso a Deus fica restrito ao Templo, mediado por sacerdotes, fixado ali. O povo agora se relacionaria com um Deus majestoso, como um Grande Rei - um tanto distante - que exigiria obediência e sacrifício.

Mas, com a “plenitude dos tempos”, aparece Jesus. Homem simples e humilde, revelando um Deus diferente: “Quando quiseres orar entra no teu quarto mais retirado, tranca a tua porta, e dirige a tua oração ao teu PAI que está ali, no segredo. E teu PAI, que vê no segredo, te retribuirá” (Mt 6,6). PAI: é assim que o Senhor Jesus chama a Deus, o Abba, o paizinho.

Deus, como Pai atento, é a figura da família, da intimidade, do quarto secreto, onde ouço e sou ouvido. Diferente da concepção judaizante do Deus nacional - Rei distante - o Deus revelado em Jesus volta a ter feições familiares como nos tempos primordiais. Ele busca a religiosidade interior, pessoal, e nos faz filhos cuidados e protegidos por Ele. Esse Deus-Pai não tem um lugar fixo para se manifestar a seus herdeiros: “nem no monte e nem em Jerusalém”, mas é na vida, no cotidiano, “em espírito e em verdade”.

Que nossas escolas dominicais e nossas dinâmicas educacionais, como um todo, nos dirijam a um relacionamento com o Paizinho, na vida, na caminhada.



Nele, nosso Abba



Jonathan Pereira

terça-feira, 22 de março de 2011

Missão e teologia


Pensando sobre a igreja nos dias de hoje, vemos a necessidade de se arrolar novamente valores que foram fundamentos durante toda a tradição da igreja, valores estes que foram basilares na história da igreja, como a conhecemos. A inserção do cristianismo sob uma ótica holística de mundo, mais como experiência com o sagrado do que a construção dogmática sistematizadora de uma religião. O sujeito religioso moderno comumente abdica da possibilidade racional para, de forma apática, abraçar-se à dogmática religiosa. Tal ato de insensatez, cometido não só modernamente, mas durante toda a história cristã (obviamente generalizo a fim de possibilitar análise), fez com que a religião assumisse uma perspectiva distante e austera do mundo. O cristianismo tornou-se alheio ao mundo de onde ele emanou e para onde ele foi pensado. A força ganha pela expressão “fugir das coisas do MUNDO” causou, aos cristãos, condutas que os tornaram alienígenas em seu próprio mundo, sua mensagem já não condiz com aqueles para a qual foi pensada, ela enfim caducou.   O desafio da presente igreja é embebedar-se do MUNDO que a cerca, interpretando e revisitando seus valores e filosofias, e repaginando sua mensagem. Nesse sentido é necessária uma teologia apofática, em um primeiro momento, onde a igreja se disponha às dores e dúvidas existenciais e profundas do MUNDO. Após internalizar tais sentimentos, elaborar suas posições e ações, falando, finalmente, de forma efetiva do Cristo e para os quais Ele veio, todos.

Neste sentido, embebida de MUNDO e ciente de que fala deste e para este, a igreja põe-se a dialogar com a cultura, forma máxima de expressão dos povos e, sem dúvida, linguagem prismática que também forma a própria igreja. Em sua essência estão os pressupostos da vida e da liberdade. A igreja deve em síntese ser vida e liberdade, sua ação deve refletir esses ideais, seu discurso deve ser perpassado desses ideais, sua vida deve transparecer esses ideais e é para esses ideais que se deve trabalhar. Porém o cristianismo, que é vida e liberdade e era intimamente envolto ao povo e às culturas deste, tornou-se refém do Capital, gerando a morte. Os arroubos numéricos e de resultados das comunidades de fé, refletem o perigo de perder-se no MUNDO sem os princípios basilares de vida e liberdade. A religião inicialmente subversiva e popular preocupada com a igualdade do ser humano viu-se refém de seu sentimento de vaidade e apresenta-se Burguesa. Nesta religião burguesa, o futuro messiânico se acha gravemente ameaçado. E isto em primeira linha, não porque se converte em pacificação e consolação, em ópio para aqueles que nada têm e que são sem futuro, mas porque serve para confirmar e fortalecer aqueles que já têm e possuem; aqueles que são, de qualquer maneira, ricos de perspectivas e de futuro neste mundo. A igreja é, neste sentido, voz profética de um mundo refém do Capital e morto pelo mesmo; chamando à vida e à liberdade seus seres formadores, as pessoas, e mantendo esta condição sine qua non para sua existência.

O cristianismo deve entender-se não como multifacético em seus milhares de rixas e divergências, mas assumir-se como unidade que milita a vida e liberdade. A perspectiva unitária do proto-cristianismo ocasiona a diminuição das distorções e a dissipação aleatória de forças em abordagens vis e focaliza os esforços em prol das “gentes”. Assume-se a construção de um mundo, não vindouro, mas presente; onde todos cristãos ou não têm vida e liberdade, valores apregoados por humanos, nãos apenas sujeitos religiosos. A ação missionária, a missão, não é de modo algum produto exclusivo de uma denominação ou linha dogmática; ela é produto do ser humano, mais amplo que o sujeito religioso, afinal já não seria mais possível discernir entre sujeito humano e sujeito religioso, pois ambos refletiriam a mesma essência, a vida e a liberdade como mensagens humanas, como mensagem cristã.

Thiago Barbosa

sábado, 5 de março de 2011

O profeta Assembleiano

Eis alguém corajoso e consciente do perigo que a religião pode se tornar ao assumir o lugar que não lhe é devido desde os grandes movimentos europeus do século XVI: o Estado. Ricardo Gondim é corajoso. Olha no espelho e reconhece que as vozes que clamaram nas eleições pelo cristianismo no poder são seus irmãos e, com uma sinceridade profética, avalia sua própria carne, sangue do seu sangue. Reconhece que um governo evangélico nos recolocaria numa masmorra medieval. Um belo exemplo de autocrítica.



Deus nos livre de um Brasil evangélico


Ricardo Gondim






Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.


Soli Deo Gloria

 
 
 
 
PS. John Locke não está sozinho!
 
 
Jonathan





































Certeau e seu Deus


Alguns pensadores tem a sublime capacidade de, em poucas palavras, definir realidades e situações de extrema complexidade. Deus é algo de extrema complexidade. Nosso esforço em toda a história é, e talvez sempre será, o de criar símbolos que expressem a realidade de Deus no intuito de ao menos, de alguma forma, podermos possuí-lo.



"O Deus da minha fé não cessa de frustrar e guiar o desejo que busca

compreendê-lo. Ele o frustra porque nada do que eu sei é ele. Ele o guia

porque eu não o esperava lá onde ele vem... ele só é o Mesmo aparecendocomo Outro"

(Michel de Certeau)



Jonathan

sexta-feira, 4 de março de 2011

Encantamento ainda


Na verdade fico feliz quando algumas coisas que penso começam a ser discutidas pelas mentes pensantes do nascente seculo XXI. Digo isso porque tenho acompanhado, entre muitas outras discussões,  a discussão sobre o desencantajmento e o re-encantamento do mundo. Como o disse um ex-professor, a Europa havia decretado o desencantamento do mundo logo após as grandes transformações cinentíficas, filosóficas e tecnológicas advindas do bombástico século XIX. Em outras palavras, toda a magia e sacralidade, toda a visão metafísica do mundo tornou-se uma impossibilidade.Com isso, podemos dizer, o mundo se desencanta.

Mas parece que há um movimento, liderado por filósofos consideravelmente reconhecidos por grande parte dos pensadores atuais, que insistem em propor  a existência ou a ocorrência de um fenômeno: a volta ao encantamento. Para alguns, isso é uma falácia. Pesquisadores como o Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro, Teólogo Batista, defendem a posição de que o mundo nunca se desencantou, ao contrário, somente parte da Europa o disse, o vivenciou, em parte, não toda Europa, muito menos todo o mundo. A religião para o Dr. Ribeiro, nunca deixou de existir, nunca. E eu concordo.

Como afirmei no começo, gosto de saber que as coisas pelas quais tenho refletido permeiam o pensamento dos pensadores. Saber que a magia, a sacralidade - porque não dizer a religião - não morreram, ao menos no imaginário das muitas sociedades no mundo e nas discussões dos intelectuais. Isso fortalece a ideia, a qual tenho desenvolvido em meus estudos, de que há no homem o desejo, a necessidade  de encontro, a curiosidade,  o querer sobre o Incondicionado, sobre o Mistério. Está em nossa constituição a partícula sagrada de uma preocupação última, que nos toca e nos leva a uma cosmovisão teônoma do cosmos e da existência. Mesmo que o sagrado nã esteja na coisa em si, está, ao menos, em nossos olhos.

Esse interesse pelo que nos toca incondicionalmente, pelo Uno indivisível, mas que pode ser encontrado aqui e ali, pelo sagrado invisível e também palpável, escondido e revelado, é, sim, coisa humana.
Boas palavras essas, as de

Por isto não ‘creio’, nem ‘descreio’.
Descobri um outro ‘jeito’: sei…
E quando se sabe, não tem como mudar de opinião, já que não é uma opinião. Faz parte de mim, assim com respirar e ter ossos, que com a maturidade chegando doem...
E estas experiências, momentos de êxtase, satori ou samadhi, como se diz na Índia, não tem como descrever. Não tem como transferir…
Não cabe em nenhum livro, nem é minha realidade atual…
Já dancei com ‘algo’ que me elevou aos ‘céus’ e ao mesmo tempo, sentia meus pés bem firmes no chão.
Por isto gosto muito da expressão dos Sufis: La ilaha illa ‘llah, que eu resumo assim: só existe deus. Só deus é!

(José Bosco dalla Pietá Carvalho - 03/04/2007)
Jonathan

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Da resposta ao amigo Jonathan

Amigo Jonathan,

Tocastes num tema que muito me aprecia, quer dizer, a experiência religiosa! Como eu estou – temporariamente? - afastado de um estudo sério da teologia e me encontro no campo da filosofia, posso dizer que o estudo da experiência religiosa e da mística constitui uma área que toca nossa tão amada teologia, e que, portanto, me é preciosa; afinal, depois do século XIX, como pensar uma teologia que alcance as pessoas sem pensar em como se produz e se efetiva a experiência do homo religiosus de uma sociedade dessacralizada?!

Sendo assim, vamos lá... Tenho algumas considerações a fazer sobre sua postagem.

Você disse: “A Mística não quer abandonar o dogma, mas transcendê-lo retirando dele seu aspecto de finalidade. Além disso, o místico não abandona a realidade e a objetividade necessárias a uma religiosidade sadia, no entanto, busca abrir-se ao goso infinito que se manifesta também na vida.”

Por uma questão de definição, que é de sua importância uma vez que este blog é lido por diversos públicos, devo dizer que a Mística a qual se refere é a “mística religiosa”. Pois, se uma vez você afirma que a “mística não quer abandonar o dogma” e esse dogma dito refere-se ao dogma religioso, essa mística só pode ser a mística religiosa. Se acima você fala sobre Deus, fala sobre a mística presente na hierofania, na teofania. Mas onde quero chegar com essa definição?

A “mística-religiosa” depende do dogma, ou seja, dessa objetividade “necessária a religiosidade” como você bem lembra. A mística que se separa do dogma, e aqui me refiro ao dogma religioso, é a mística do mundo dessacralizado: a mística ao ouvir uma ópera, ver um quadro de Da Vinci, ler um romance de Proust; ou seja, uma mística que não tem nada a ver com a mística religiosa. Mas no nosso caso discutido, a mística-religiosa depende do dogma pois o dogma é aquilo que fundamenta a realidade do homo religiosus. Esta realidade aqui é a realidade de um cosmo sacralizado, para usar a expressão de M. Eliade; ou seja, o cosmo onde a(s) divindade(s) estão em constante agir.

Esse cosmo sacralizado é a realidade por excelência para o homo religiosus, sendo que a permanência e a manutenção dessa “organização” do mundo num cosmo depende do dogma, que é o princípio básico e inquestionável. Sem um princípio imutável e inquestionável o cosmo regride ao caos, sendo que o homem religioso não consegue viver no caos: um mundo destituído de sentido.

Sendo assim, hei de discordar com você que a mística pretende retirar do dogma o aspecto de finalidade da experiência religiosa. O dogma, que se traduz em rito e liturgia como você diz a frente, é a própria mística da experiência religiosa. Como pois poderia ele se separar dela?

Vale falar sobre os ritos e liturgias que estas são representações do mito cosmogônico. Ou seja, as formas de culto, os sacramentos, os cânticos e etc, fazem alusão àquilo que já ocorreu antes mesmo que o mundo – esse cosmo organizado (redundância proposital) – fosse criado a partir do nada – ex nihilo. Em exemplos práticos: o sacramento da Santa Ceia corresponde a união dos fiéis a Cristo, tal como havia com Ele antes da queda: lembrando que o período em que o homem esteve no paraíso (e que você usa dessa metáfora no seu post) corresponde à realidade que todo cristão quer retornar, à realidade onde Deus estava efetivamente presente, portanto, corresponde à realidade por execelência. (Obs: meus amigos, essa visão que esboço não corresponde à teologia bíblica, mas à sistemática e à cristologia; afinal, a TB enxergará duas divindades completamente diferentes: uma no VT outra no NT... como vocês bem sabem). Por isso Tillich afirmará que entender esses ritos e liturgia é entender essa nossa preocupação suprema.

Mas seguindo esse raciocínio, irei discordar contigo que a espiritualidade fundamenta a experiência na doutrina. Você disse: “Começo pela espiritualidade que fundamenta sua experiência na doutrina o que, por sua vez, se desdobra no rito e na liturgia, principalmente no caso dos cristãos.”. A experiência religiosa mediante ao contato com o rito e a liturgia que não são meramente ritos e liturgias, mas propriamente hierofanias/teofanias, o homem passa a fundar a sua espiritualidade. O homem não cultiva espiritualidade para assim participar dos ritos, mas antes, participa deles e neles encontra o divino, e com este se une. Dessa maneira, funda sua espiritualidade.

Falando do existencialismo de Kierkegaard, mestre Eckhart e da busca pelo misterioso, devo lembrar que seja em Eckhart seja no filósofo dinamarquês, a experiência religiosa já fundava a sua experiência para com o mundo, ou seja, sua cosmovisão. Portanto, esse “ser indisível”, esse “Àquele que estava em tudo”, já figurava no constituinte do sentido do cosmo: esses mestre por sua tradição religiosa já colocavam no mundo um sentido sacralizado. Contudo, isso não constitui a “mística por excelência”, até porque a mística por excelência não existe: o que existe é a mística, é essa experiência metafísica com algo externo a nós, que durante um espaço de tempo parece fazer (e realmente faz) parte de nós – seja Deus, sejam homens, sejam animais, sejam objetos ou sentimentos.

Toda espiritualidade é mística, ao passo que conecta o homem à algo ou alguém metafísico! Portanto, por mais que possam existir Multiformes Espiritualidades, todas elas serão místicas, mesmo essa espiritualidade dita "racional", que até onde vejo, nada de efetivamente racional há: no máximo há uma racionalização in principio, para depois haver o "salto" como quis Kierkegaard.

Já escrevi muito e temo ter sido enfadonho e prolixo. De qualquer forma, espero ter esclarecido os pontos em que discordo do querido amigo: tarefa que só me tive ao trabalho de fazer por conta do diverso público que lê nossas palavras, de forma que não sejamos parciais.

Muito aproveitosas foram suas palavras e elas me inspiraram a escrever um novo post sobre mística! Até logo mais...

Alan B. Buchard

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Jared Diamond - As sociedades que entram em colapso.

Talvez um bom pensamento que precede à analise do vídeo que aqui posto seja o pensamento Paulino de que "o bem que eu quero fazer eu não faço, mas o mal que eu não quero fazer, esse sim eu faço". Gostei bastante e posto aqui. Uma leitura ecológica das atitudes das sociedades sobre suas responsabilidades com o ambiente.



Thiago Barbosa

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

SOBRE RELIGIÃO, TEOLOGIA E HISTÓRIA DO ANTIGO ISRAEL




Gostaria de iniciar, nesse espaço virtual, uma “série” de comentários e leituras sobre a Religião, Teologia e História do Antigo Israel. Conto para isso, principalmente, com a colaboração de meu amigo Thiago Barbosa, cujo trabalho de pesquisa atual está posto sobre a literatura veterotestamentária.

Basearemos esses comentários na literatura produzida por especialistas na área tanto da religião como da história e da cultura judaica. Utilizaremos textos de autores clássicos como pesquisadores recentes; todos dentro do círculo dos mais importantes nomes da pesquisa sobre o Israel Antigo para fundamentar nossa reflexão. Nomes como Martin Noth, G. Von Rad, A. Alt, G. Fohrer, N. K. Gottwald, H. Donner, G. F. Hasel, F. Crüsemann, I. Finkelstein, E. Gerstenberger e muitos outros. Isto quer dizer que não ousamos aqui falar de pensamentos próprios, antes, faremos comentários baseados em nossas leituras desses mesmos autores e pesquisadores procurando analisar textos bíblicos que nos “saltam aos olhos” afim de lançar luz sobre o emaranhado de expressões de fé, teologia e culto registradas no Antigo Testamento.



Primeiras Palavras




Primeiramente faz-se necessário clarificar o tipo de abordagem que será feita ou sobre que pressupostos e métodos teológicos estarão baseados nossos estudos que se seguirão. Para isso, uma retrospectiva à história da igreja cristã é necessária afim de extrair, principalmente da Reforma Protestante, o fundamento da pesquisa teológica do Antigo Testamento sobre o qual todos os teólogos e estudiosos sitados acima se baseiam.

Foi a partir século XVI que a aproximação das Sagradas Escrituras ganhou um novo registro de leitura e interpretação. Com o princípio Sola Scriptura , bandeira dos reformadores, deu-se início à luta contra a autoridade da Igreja sobre a bíblia e sobre as consciências, “preparando o terreno” da liberdade com o Livre acesso às escrituras. Uma batlha foi travada contra a escolástica e a tradição, dando uma nova forma à Teologia Bíblica. G. F. Hasel dá-nos um bom entendimento sobre esses novos caminhos da Teologia:



“ O termo Teologia bíblica tem duplo sentido: 1. pode caracterizar a teologia que está arraigada no ensinamento das escrituras e nelas fundamentada ou 2. pode caracterizar a teologia inerente à própria Bíblia. Neste último caso, trata-se de uma disciplina teológica específica... Compreendia-se que a Teologia Bíblica consistia em textos de prova ( dicta probantia ou collegia biblica) das Escrituras, extraídos indiscriminadamente dos dois Testamentos, de modo a apoiar os tradicionais 'sistemas de doutrina'. A função auxiliar da teologia bíblica, em contraposição à dogmática (sistemática), foi solidamente estabelecida por Abraham Calovius ao intitular de teologia bíblica o que antes era chamado de teologia exegética...” (Hasel-1987)



A Teologia Bíblica irá incorrer num movimento emancipatório em relação à Teologia Dogmática. Já em 1745 deixa de ser um auxilio para a Dogmática transformando-se aos poucos numa disciplina independente.

A era do Aufklärung (Iluminismo), principiou o movimento de libertação da Teologia Bíblica com a contribuição do pensamento racionalista. Este reagiu fortemente contra toda a forma de sobrenaturalismo sustentado pela Teologia Clássica. Como afirmou Hasel “a razão humana tornou-se o padrão definitivo e a fonte principal de conhecimento, isto é, a autoridade da Bíblia como registro infalível de revelação divina fora rejeitada”.

A bíblia, então, torna-se um livro antigo, como qualquer outro documento o qual deve ser estudado e interpretado. A partir desse momento, a Teologia Bíblica passa a se tornar rival, como o declarou Anton Friedrich Büsching em 1756, transformando-se aos poucos numa disciplina de caráter histórico.

Num ano decisivo – o ano de 1787 - ouviu-se declarações como a conhecida declaração de J. P. Glaber : “ A teologia bíblica possui um caráter histórico: ela transmite o que os escritores sacros pensavam de temas divinos; já a teologia dogmática possui um caráter didático: ela transmite as ponderações filosóficas de determinado teólogo acerca de temas divinos, levando em conta sua capacidade, época e região que viveu, e orientação ou escola, entre outras coisas.”

É com base nessa chamada “Teologia Bíblica” que pretendemos basear nossos comentário sobre textos bíblicos.

Sobre essa disciplina poderíamos ainda falar muito, principalmente do período – penso eu – de mais auto nível da reflexão séria e comprometida com o diálogo com as ciências e com a história: o século XIX. Mas acho que para uma pequena introdução em forma de esclarecimento é suficiente. Daremos continuidade nas próximas postagens em conjugação com temas diversos que surgem e continuarão surgindo.



Jonathan

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Teologia do Povo

Em sua história, o homem sempre buscou explicações para todas as coisas, sobre a realidade e sobre sua existência. Não obstante, também buscou formas de justificar suas ações que, muitas vezes,  tinham respaldos sobrenaturais, melhor dizendo: os deuses poderiam aprovar e justificar ou não os atos dos homens.

Quantas coisas fizeram os homens em nome dos deuses em toda a história da existência humana, aqueles que se apoiavam  em ideias que criaram  a respeito desses seres divinos? Bem, em se tratando de ideias originais sobre deuses, João Nerval justifica-se teologicamente:







Jonathan

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Multiforme Espiritualidade

Algumas coisas da vida ficam marcadas para sempre na mente e no coração. Para iniciar essa pequena palavra sobre a relação do homem com Deus, quero começar contando uma experiência, resumidamente, que tive na bela cidade de Paraty, mais especificamente em Trindade no estado do Rio de Janeiro. Penso que muitos dos leitores de Cristianismo Livre já estiveram lá e constataram o que eu e Kel, minha esposa, constatamos: uma cidade extasiante, bela e calma, com praias que lembram mais a descrição das histórias primordiais do Gênesis, quando do paraíso do Éden.

Nesse paraíso pude desfrutar de toda a beleza das paisagens, das águas quentes do mar, da boa comida e de muitas outras coisas que este "Jardim" proporciona. Mas, como todo Teólogo atento às múltiplas linguagens do mundo criado por Deus em busca de sentido que o permita responder as questões mais profundas, dei-me, num momento, a contemplar a beleza de tudo aquilo que me cercava: o mar, a fauna, a flora, o céu estrelado nas noites frescas a beira-mar. Nesse momento de contemplação fui tomado por um sentimento sublime, como se algo dentro de mim estivesse se unindo a algo que estava além de mim mesmo e senti como se estivesse sendo abraçado por alguém, alguém muito maior e mais forte que eu.
Não posso explicar a alegria que invadiu meu coração naquela hora. É como se tivesse me tornado uma indefesa criança e fosse tomada no colo por um pai amoroso.
Como traduzi esta experiência?

Redescobrindo a espiritualidade que se dá, também, na vida, na relação com as coisas criadas! Como o disse Dr. Edson de Almeida "é redescobrir a sacralidade da vida", e do mundo. Podemos traduzir esta espiritualidade numa linguagem antiga, de significado semelhante na qual a comunhão plena com Deus se dá de forma imediata. A Mística não quer abandonar o dogma, mas transcendê-lo retirando dele seu aspecto de finalidade. Além disso, o místico não abandona a realidade e a objetividade necessárias a uma religiosidade sadia, no entanto, busca abrir-se ao goso infinito que se manifesta também na vida.
Nessa mística da contemplação da natureza e na contemplação de tudo aquilo que é belo e que de muitas formas alcança o mais intimo do ser, pode-se experimentar Deus quando tudo isso se torna sacramento. Assim como "não nos basta o alimento, é preciso que o alimento se transubstancie em comida: mesinha arrumada, cheirinho bom do ingrediente... é preciso que a comida se transforme em sacramento."

Para melhor explicar essa comunhão com Deus faz-se necessário uma palavra tanto a respeito do significado desse tipo de espiritualidade - a mística - como de sua relação com a religiosidade objetiva: a doutrina, os ritos e a liturgia. Começo pela espiritualidade que fundamenta sua experiência na doutrina o que, por sua vez, se desdobra no rito e na liturgia, principalmente no caso dos cristãos. Não há nada de errado basear-se em dogmas, ritos e liturgia. Como afirmou Tillichi, é preciso "entender esse conjunto de doutrinas como representação de nossa preocupação suprema, a qual queremos servir num determinado grupo, que também se fundamenta na mesma preocupação suprema", e tudo o mais que deriva dela: rito e liturgia.

Como representação da preocupação última, daquilo que nos toca incondicionalmente, pode, então, ser vista a mística. Ser místico é ser "dominado" pelo interesse profundo que há em nós que, segundo Kierkegaard, é uma "paixão infinita" que se derrama em direção Àquele que é e está em tudo, ao mesmo tempo que não é e está para além de todas as coisas. "O menor de Deus repleta todas as criaturas e sua grandeza não se encontra em nenhum lugar", como bem disse Mestre Eckhard. É atrás desse ser sublime, indizível, que a alma do homem vai, em busca do "misterioso" num movimento imediato.

Isso traz algumas dificuldades para o espírito protestante, pois nele não é aceitável um movimento do homem para Deus, ao contrário, para os filhos da Reforma, somente Deus pode ir até o homem por meio da livre Graça manifesta em Jesus Cristo. No entanto, vemos muitos protestantes que demonstraram aspectos dessa espiritualidade mística, inclusive Lutero. Mas isso é um assunto para outra conversa.

Concluindo, queria deixar registrado como um simples pensamento sobre espiritualidade e para a reflexão dos leitores uma outra proposta, ou, uma outra linguagem da espiritualidade e da comunhão com Deus. Um acesso a Deus que é capaz de transcender os símbolos, a linguagem, o dogma, a liturgia ( não deixando de tê-la muitas vezes), o ríto, aquilo que pode ser mais sagrado em nossa tradição religiosa.

Poderíamos continuar, mas penso que devo parar por aqui, pois inauguro aqui minha volta ao Cristianismo livre e não quero ser enfadonho. Quero humildemente contribuir com outras reflexões, talvez um pouco mais maduras, mais informativas, que sejam do interesse dos leitores desse blog. Agradeço a oportunidade a meus amigos Thiago e Allan por permitirem minha estadia por aqui.

Cordialmente

Jonathan


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

pedido de desculpas...


Perdoem. Afinal, há bons dias não posto nada. Tal fato se dá na correria do período de estágio aqui em Palmas, dias de aprendizagem e de pouco tempo/disposição para as elucubrações da escrita.

Tentarei em breve manter alguns pensamentos, eles ainda resistem, a duros golpes do ostracismos, mas resistem.

Assim sendo, aguardem. Na paz que excede todo o entendimento e finalmente na curiosidade que consome os que arfam pela liberdade intelectual.

Thiago Barbosa