A arte de pensar livremente

A arte de pensar livremente
Aqui somos pretensiosos escribas. Nesses pergaminhos virtuais jazem o sangue, o suor e as lágrimas dos que se propõem a pensar com autonomia. (TeHILAT HAKeMAH YIRe'aT YHWH) prov 9,10a

sábado, 12 de setembro de 2009

Nunca se deve aceitar algo só porque foi dito por uma autoridade

Esse texto foi retirado do blog de Marcelo Gleiser, e este é o pensamento do teólogo, do biólogo, do físico, enfim, do pesquisador pensante que se propõe a libertar e libertar-se pelo conhecimento. Esta é a esperança, que o conhecimento nos torne livres, humanamente livres. Assim conheceremos a verdade e a verdade NOS libertará.

Já que esta coluna cai na véspera do dia da Independência, achei oportuno revisitar um tema que está sempre presente na vida da gente: a questão da liberdade. Claro que, nestas breves linhas, eu não teria a pretensão de apresentar muitos pensamentos profundos sobre o que significa ser livre. Convido apenas os leitores a uma reflexão, iluminados, como sempre, pela luz da ciência.

Quando era garoto, gostava muito de citar a seguinte frase: "Ser livre é poder escolher ao que se prender". Outra versão é: "Quanto mais chaves você carrega no bolso, menos livre você é". Não há dúvida de que a primeira é mais filosófica. (Acho que é atribuída, talvez erroneamente, ao filósofo francês Jean-Paul Sartre.) Mas ambas dizem algo de semelhante: que liberdade e escolha andam de mãos dadas.

Existem, certamente, situações em que isso não é verdade: pessoas "presas" não por terem cometido algum crime, mas por serem aprisionadas por alguma ideologia que lhes é imposta. Por exemplo, as crianças que nascem em famílias ultrarreligiosas nunca têm a opção de refletir sobre os valores que lhes são impostos. Mesmo sem carregar chaves, estão presas até crescerem o suficiente para poder (ou não) se rebelar. O mesmo ocorre com os indivíduos que vivem em regimes políticos totalitários, onde a "verdade" é controlada pelo Estado.

Ou seja, a frase "ser livre é poder escolher ao que se prender" pressupõe que o indivíduo tem a liberdade de escolha. Isso nem sempre é verdade. Para sermos livres, precisamos ter livre acesso à informação. Só assim teremos o privilégio de poder escolher ao que vamos nos prender.

Daí o papel fundamental da educação, contanto que livre de censuras ideológicas. Já em torno de 50 a.C., o poeta romano Lucrécio celebrava a importância da educação na liberdade das pessoas. Sua preocupação era com a excessiva superstição dos romanos, que atribuíam tudo o que ocorria à ação de algum deus. Consequentemente, a maioria da população vivia aterrorizada. Só aqueles que usam a razão para desvendar o porquê das coisas podem de fato ser livres, dizia.

Só quem reflete sobre as causas das coisas, em vez de atribuí-las cegamente a causas sobrenaturais, é livre dos medos que assombram a vida. A educação deve fornecer ao indivíduo a capacidade de reflexão crítica, a habilidade de saber fazer perguntas e não de aceitar passivamente tudo o que lhe é dito. Essa habilidade, esse ceticismo, é um dos aspectos mais cruciais do treinamento de um cientista. Nunca se deve aceitar algo só porque foi dito por uma autoridade.

Essa atitude é exatamente oposta ao que ocorre em culturas conservadoras e repressivas. Mesmo que a ciência busque uma ordem no mundo material, sua essência é anárquica. Os grandes revolucionários da ciência, Copérnico, Galileu, Kepler, Newton, Einstein, Bohr, foram todos anárquicos a seu modo. Todos defendiam a sua liberdade de pensamento acima de tudo, recusando-se (ou quase, no caso de Galileu, sob ameaça da Inquisição) a aceitar o saber das autoridades. Para eles, ser livre é ter a coragem de pensar por si mesmo sobre os grandes problemas, na tentativa de chegar a uma verdade aceita pela maioria.

Quando penso em liberdade, penso nesses nomes, e em tantos outros -cientistas ou não- que lutaram para que hoje possamos ter a visão de mundo que temos. Se hoje somos mais livres, devemos agradecer a eles. Se há tantos longe de ser livres, é porque ainda temos muito o que fazer.


Na eterna busca,

Thiago Barbosa

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Tempus

Talvez o garoto de Cachoeiro esteja esperando o seu tempo enfim chegar. Ou que sabe, esperando a aurora raiar para que novamente levante seu voô rumo ao que lhe é desconhecido.

Fico profundamente tocado por este último post do tão querido amigo Jonathan. Sim amigo, eu de fato fiquei um pouco distante, contudo, não me roubaram a alma como dizes. Volto a afirmar que não serão meia dúzia de homens que poderão barrar aquilo que tenho a dizer e a pensar.

Mas em tudo, eu só espero o momento oportuno. E fique sabendo que em silêncio muito se é produzido.

Prometo retornar aos meus post.

Grandes saudades de todos vocês, companheiro sérios na caminhada rumo ao que não sabemos.

Alan Buchard

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Onde está?


Gostaria de me pronunciar e deixar aqui, no cantinho dos sonhadores minha indignação.

Onde está o garoto de Cachoeiro?
Será que não lhe interessa mais reflexões? Sera que Teologia não o interessa mais?
Onde está o garoto de Cachoiero?
Desistiu de voar com os simples pardais?
Onde está o garoto de Cachoeiro?
Lhe cortaram as asas e lhe roubaram a alma?
Onde está o garoto de Cachoeiro?

Jonathan

E agora? Que coisa Tillich...

Cumprindo o exercício de escrever quase diariamente (ainda não consigo me habituar!) deixo aqui minha pequena crise de hoje na qual Paul Tillich participa.


“... sua religiosidade pessoal vai sempre depender da tradição da igreja que lhe deu vocabulário e os símbolos utilizados na oração, na contemplação e na experiência mística.”


Se levarmos a teologia a sério, e dizendo isso parto do pressuposto de que esta é o estudo do discurso dos homens sobre o sagrado, podemos dizer que para validar qualquer discusão nessa plataforma, deve-se estruturar todo o discurso a níveis objetivos, com respaldos reais e historicamente provados ou levados ao crivo da crítica.


Ao assumir, ou, ao não desprezar as exigências da mentalidade Romântica, ou seja, permitir que faça parte de nossas reflexões rasuáveis à crítica( no sentido Kantiano da palavra), permitimos o desestruturar da tradição religiosa. Se toda a tradição corre o risco de cair, como caiu a Torre de Babel, o que sobra? A experiência, sustentada por alguns sintetizadores? Mas a experiência não faz uso do símbolo? Então o que resta? Seriam os símbolos indiferentes para se manter a religiosidade individual? ...


Jonathan



Como assim esquecer a teologia em um curso de teologia?

Podem-se classificar as Teologias, todas, sob o critério de sua autocompreensão metodológico-estatutária, em três modelos: teologia como ontologia, teologia como metáfora e teologia como fenomenologia.

A mais velha de todas é a primeira – teologia como ontologia. Desde sempre, e ainda hoje, pretendia-se porta-voz da verdade metafísica. Pode-se acentuar qualquer das palavras. Porta-voz da verdade metafísica, no sentido de que se colocava, e coloca, ainda, como expressão única e válida. Porta-voz da verdade metafísica, no sentido de que, fora de sua boca, ouvem-se apenas falseamentos. Porta-voz da verdade metafísica, no sentido de que a verdade, “ideológica”, está lá fora, não apenas num idealismo imaterial, mas no mundo sobrenatural do sagrado. Porta-voz da verdade metafísica, no sentido de que a verdade metafísica fala tão somente por meio dela.

A Teologia como metáfora até se entende como autorizada a denunciar o anacronismo da metafísica, e denunciar a politização dela – e cai no mesmo erro que pretende denunciar. Porque ela é igualmente política, e apenas não abandona os termos da Teologia “clássica”, porque emerge dela, e pretende suceder-lhe. É continuísmo disfarçado em superação epistemológica. Mas, a meu ver, não a supera epistemologicamente, porque apenas coopta elementos esparsos da epistemologia romântica, mas até onde quer e lhe interessa.

Finalmente, a Teologia como fenomenologia, bastante rara, corre o risco de perder o direito de chamar-se a si mesma de Teologia. Ocorre que seu fundamento epistemológico pretende ser coerente com os desdobramentos filosófico-culturais do pós-kantismo, naquele trilho que se pode traçar desde o primeiro Kant, o da Crítica da Razão Pura, sem o contágio do segundo Kant, o da Prática, mas passando pelo Romantismo alemão, por Schopenhauer, por Feuerbach, por Nietzsche, por Heidegger, por Freud, e, mais recente, pelos desdobramentos próprios das Ciências Humanas, do século XX. Convertida, sinceramente, a tais valores epistemológicos, próprios da filosofia daqueles senhores todos, a Teologia como fenomenologia encarna radicalmente. Abandona, honestamente, seu desejo metafísico, seus arroubos ontológicos, e transforma-se em discurso reconhecidamente (apenas) humano.

As informações acima foram retidadas de: http://www.ouviroevento.pro.br/teologicofilosoficos/classificando_teologia.htm (Osvaldo Luis Ribeiro).


Hoje novamente voltou a acontecer, mais um dos alunos da "colina" se levantou para dizer que devemos esquecer a teologia. Não sabem eles que se matricularam no curso de "bacharel em teologia", e agora reconhecido pelo MEC? Se não querem a teologia o que buscam aqui? Já me apresso em dizê-lo, buscam o que deveriam ter desenvolvido em suas comunidades de fé. Buscam o amor, a experiência metafísica, o crescimento espiritual, as experiências pessoais e personalizadas dos "homens de Deus". Tudo isso deveria ter sido conhecido e aprimorado nas comunidades de fé, ou não é essa uma das atribuições dos líderes ontológicos ou seus candidatos à sucessão? A teologia apenas se propõe ao estudo e crítica dos discursos feitos a respeito de Deus - ao menos a teologia do MEC , a fenomenológica - já o estudo do próprio Deus deixemos para os especialistas "homens de Deus", homens com um deus tão medíocre que consegue ser manipulado na prepotência de serem estudiosos dessa divindade. Aos teólogos que ainda resistem a um mar de omissão e deturpação das academias teológicas que surgem em número - o que infelizmente não reflete em qualidade - resta a esperança de nos prepararmos para refutarmos mais uma avalanche de "besteirol" pré-moldado que inevitavelmente colidirá com o discurso do divino. Quando este dia chegar, observaremos quem resistirá à critica, pois a maledicência não resiste à teologia.


Ps. O pior é que esses não notam que o que eles querem é teologia, mas a ontológica. Ainda sim, teologia.

Thiago Barbosa

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sobre a unção dos R$ 900,00





• "Todo o homem rico é, ou injusto na sua pessoa, ou herdeiro da injustiça e da injustiça de outros" (Omnis dives aut iniquus est, aut heres iniqui) - São Jerônimo.


• "Quem quer se tornar rico tomba nas armadilhas do demônio, e se entrega a mil desejos não apenas vãos, mas perniciosos, que o precipitam por fim no abismo da perdição e da condenação eterna" São Timóteo, 6.


• "Ou tu és rico e tens o supérfluo, e nesse caso o supérfluo não é para ti, mas para os pobres; ou então tu estás numa fortuna medíocre, e então que importa a ti procurar aquilo que não podes guardar?" São Bernardo


• "Mas a moral do evangelho vai ainda mais longe; porque ela nos ensina que quanto mais um cristão é rico, mais ele deve ser penitente; ou seja, mais ele se deve deduzir das doçuras da vida; e que estas grandes máximas de renúncia, de escrutínio, de desapego, de crucificação, tão necessárias à salvação, são muito maiores para ele do que para o pobre" Louis Bourdaloue, jesuíta francês do século XVII.


• "E não podemos dizer também que quase todos os ricos são homens corruptos, ou antes, perdidos pela intemperança das paixões carnais que os dominam? Por quê? Porque têm todos os meios do ser, e que não usam as suas riquezas que não seja para saciar as suas brutais avarices. Vítimas reservadas à cólera de Deus, engordados dos seus próprios bens! Quantos é que conheceis que não sejam assim? Quantos é que vós conheceis que, na opulência, tenham aprendido a dominar o seu corpo e a o limitar em restrição? Um rico continente ou penitente não será uma espécie de milagre?", Louis Bourdaloue, jesuíta francês do século XVII.


• "Uma virgem pode conceber, uma estéril pode dar à luz, um rico pode ser salvo: estes são três milagres nos quais as escrituras sagradas não nos ensinam outra coisa que não seja que Deus é onipotente. Pois é verdade, ó rico do mundo, que a tua salvação não é nada fácil, ela seria impossível se Deus não fosse onipotente. Consequentemente, esta dificuldade passa bem distante dos nossos pensamentos, já que é necessário, para ultrapassá-la uma potência infinita. E não me digas que estas palavras não te dizem respeito porque talvez não sejas rico. Se não és rico, tu tens vontade de o ser; e estas maldições sobre a riqueza devem cair não tanto sobre os ricos mas sobretudo sobre aqueles que o desejam ser. É para esses que o apóstolo pronuncia, que eles caem na armadilha do diabo e de muitos desejos malvados, que precipitam o homem na perdição. ... Também o apóstolo tem razão quando diz que o desejo de riqueza é a raiz de todos os males; Radix omniumm malorum est cupiditas". Jacques Bénigne Bossuet (1627-1704), bispo, teólogo e escritor francês, sermão em Metz a quatro de Outubro de 1652.


Seria tão interessante apresentar tais frases aos líderes de nossas igrejas, aos “pastores” televisivos, aos gafanhotos da fé alheia. Mas se há esperança – e creio que há - é de que o ministério “pastoral” possa ser dos sábios e dos profetas e não dos sacerdotes, possa ser reflexivo e não dogmático, possa ser humanamente sincero, pois o “divinamente” atribuído se tornou falsário e enfadonho e de divino só tem a nomenclatura. A essência do divino - que é o importante – já se foi. Sua morada, falecida a dias está malcheirosa, putrefata, e essa essência busca o coração dos sinceros para novamente encontrar morada e seus ramos se formarem frutíferos para seu desenvolvimento, crescimento, sentido de vida humana e finalmente divinamente inspirada, com simplicidade e singeleza de coração como na descrição do livro de atos.


Que Deus me faça sincero.
Thiago Barbosa

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Engatinhando na brincadeira que é a exegese...

Cosmogonia e antropogonia, o Gênesis se mostra como uma grande cortina, portanto os curiosos se coçam sob a possibilidade de se esgueirar para trás, nos bastidores do texto bíblico.

1 - Seria o Gênesis uma resposta de um prisma populacional – agora recém-chegados ao Crescente Fértil – com uma resposta ao mito de Enuma Elish?

2 - Os relatos antropogônicos remontam a transição dos modos de transição extrativista para agricultores ou pastoril? Se verdade, remontariam a formulação de textos remontando realidades tribalistas (nômades) em contraposição a textos afirmando a hegemonia das “cidades” (sedentarismo)?

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(tábua I do poema babilônico de Enuma Elish)

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"Quando no alto não se nomeava o céu,

e em baixo a terra não tinha nome,

do oceano primordial (Apsu), seu pai;

e da tumultuosa Tiamat, a mãe de todos,

as águas se fundiam numa,

e os campos não estavam unidos uns com os outros,

nem se viam os canaviais;

quando nenhum dos deuses tinha aparecido,

nem eram chamados pelo seu nome,

nem tinham qualquer destino fixo,

foram criados os deuses no seio das águas".

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Gênesis 1.1-7 (apenas como exemplo)

1 ¶ No princípio criou Deus os céus e a terra.

2 E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

3 ¶ E disse Deus: Haja luz; e houve luz.

4 E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.

5 E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

6 ¶ E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.

7 E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.

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Envolto em um oceano de questionamentos,

Thiago Barbosa

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Conceitos "Pannenbergianos" à Igreja tupiniquim

"Uma mensagem não convincente, como alternativa, não é capaz de alcançar o poder de convencer simplesmente apelando ao Espírito Santo... A argumentação e a operação do Espírito não são mutuamente exclusivas. Ao confiar no Espírito, Paulo de forma alguma dispensou-se de pensar e argumentar". (Wolfhart Pannenberg)

Se este importantíssimo teólogo passasse suas férias em terras tupiniquins certamente seria acometido de urticárias constantes ao perceber que somos marionetes nas mãos do “Espírito Santo” – aquele que foi inventado por “homens de Deus” subversivos e maldosos – na esperança de manipular a veracidade de seu discurso tendencioso e malévolo em contraposição à bondade e liberdade revolucionária que emana do evangelho do Cristo.



Tentando seguir os conselhos de Kieerkgaard de ao menos escrever uma linha por dia,
Thiago Barbosa

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Lampejos

Acho que minha monografia deve girar em torno do tema que penso ser de suma importância para o resgate do protestantismo histórico no Brasil e talvez no mundo. Na verdade devo me explicar ao dizer “resgate do protestantismo histórico”. Falo da genial proposição de Lutero, que abriu as portas para a modernidade, o sagrado “Livre Exame”, grito do primeiro Lutero, se é que ele sabia o que estava dizendo...
Autonomia, palavra que permeia o pensamento cristão. Conto com a ajuda do mais critico dos críticos:
“O criador procura companheiros, não procura cadáveres, rebanhos, nem crentes; procura colaboradores que inscrevam valores novos em tábuas novas” (Nietzsche, Zaratustra).

Jonathan

Cientistas na Igreja?

Seria possível um caminho alternativo que possibilite a recuperação da experiência bíblica do povo de Deus e ainda assim ressalte a importância da história na elaboração do fenômeno religioso?

Estamos no meio de uma controvérsia em relação a duas posturas. Uma denominada maximalista que defende que tudo nas fontes que não pode ser provado como falso deve ser aceito como histórico e irretocável. Outra postura denominada minimalista que defende que tudo o que não é confirmado por evidências científicas referente aos eventos deve ser propagado como inverdade, portanto, devendo ser reinterpretado à luz científica e criticado.

Como arqueólogos e historiadores modernos têm tentado reconstruir o passado de Israel sem a dependência do testemunho bíblico, levantou-se a questão de o oposto ser também possível: pode-se discernir a força das acusações de Amós ou ponderar a profundidade da mensagem de Oséias sem o conhecimento das condições sócio-históricas do reino do Norte no século oito? Pode-se agarrar totalmente a severa polêmica do Segundo Isaías sem a consciência dos desafios culturais e teológicos que a comunidade exílica enfrentou na Babilônia?

O movimento no sentido de incorporar métodos sócio-científicos e antropológicos para reconstruir o passado de Israel tem estado relacionado com a transformação da pesquisa antropológica. De fato, o estopim que detonou a explosão de tais métodos foi o monumental trabalho de Norman Gottwald. Além do mais a ascensão do estudo antropológico e sociológico tem efetivamente preenchido a lacuna presente em muitos tratados históricos sobre o Israel antigo, isto é, os processos socio-culturais e estruturais que deram forma às comunidades do mundo bíblico. Não mais limitada a questões de cronologia e às ações conscientes de indivíduos, a investigação histórica se expandiu ao incluir forças e processos por trás de aspectos menos “dramáticos” da história antiga (por exemplo, adaptações tecnológicas, desenvolvimento econômico, o papel social da mulher e a distribuição do poder político). Em suma, a utilização de teorias sociais científicas e antropológicas tem feito muito para suplementar o tipo de reconstrução histórica que até então se utilizava.

Ainda gosto da perspectiva vetero-testamentária dos historiadores e arqueólogos. Talvez seja o SUPEREGO do biólogo adormecido que me impeça de embriagar-me com a ontologia pura das comunidades de fé. Gostei de aprender a ler o “primeiro testamento” sob a perspectiva do “sacerdote”, do “sábio” e do “profeta”. A análise historico-crítica parece ser mais sincera, mais clara, mais estruturada, fatores que me permitem uma construção mais sólida para a teologia e comunidades que buscam ler a fé no século XXI sob os textos bíblicos. O grito do questionamento não se cala, aliás, ecoa de forma permanente e latente nas mentes dos sinceros: Seria possível um caminho alternativo que possibilite a recuperação da experiência bíblica do povo de Deus e ainda assim ressalte a importância da história na elaboração do fenômeno religioso?

O vespeiro está armado, o corpo dos sinceros está totalmente desprotegido. As picadas serão profundas e o veneno da análise crítica será inserido pelas matérias apresentadas neste segundo semestre. Minha oração é para que seja eu forte o suficiente para suportar todo o veneno e sair vivo, mas ileso ninguém pode apresentar-se, afinal a teologia feita com seriedade e sinceridade é única, unidirecional e metamórfica.

Na esperança de conseguir,

Thiago Barbosa